sexta-feira, 8 de julho de 2011

EUA: para quem acha matemática chata, museu promete surpreender

Imagem mostra uma das atrações do museu, que deverá abrir no próximo ano nos Estados Unidos. Foto: The New York Times
Imagem mostra uma das atrações do museu, que deverá abrir no próximo ano nos Estados Unidos
Foto: The New York Times
Para todos que acham a matemática incompreensível, chata, inútil ou todas as anteriores, Glen Whitney quer provar o contrário. Ele acredita que dezenas de milhares de visitantes aparecerão em seu Museu da Matemática, que deverá abrir no ano que vem em Manhattan, nos Estados Unidos, e sairão revigorados pela geometria, pelos números e muitas outras noções matemáticas.
"Queremos expor a amplitude e a beleza da matemática", afirmou Whitney, ex-professor de matemática que transformou suas habilidades quantitativas num emprego em Long Island relacionado a fundos de investimentos. Ele largou no final de 2008 o trabalho, ligado a pessoas endinheiradas e com a meta de tornar a matemática divertida e descolada.
Há dois anos, ele e sua equipe desenvolveram uma exposição itinerante chamada de Math Midway, uma prova de conceito para a ideia do museu. Ela inclui um triciclo com rodas quadradas de diferentes tamanhos que os visitantes podem pilotar suavemente por um caminho circular, sulcado como a pétala de uma flor. Uma placa ao lado explica por que: a superfície circular ondulada sobe e desce exatamente para compensar o estranho formato das rodas, de forma que os eixos do triciclo - e seu piloto - permanecem na mesma altura enquanto se movem.
Ehitney espera que adereços coloridos e interativos ajudarão sua causa. "Se abordarmos pessoas na rua - 'que adjetivos você usaria para descrever a matemática?' -, muito poucos diriam que a matemática é linda", afirmou Whitney.
Sua visão atraiu grandes contribuições. O museu, que ficará no número 11 da rua 26, levantou US$ 22 milhões, incluindo US$ 2 milhões do Google e muito dinheiro de doadores individuais.
Ainda não se sabe se um museu de matemática pode dar certo. Não existe nenhum nos Estados Unidos e o único e pequeno que existia, em Long Island, fechou em 2006. Há diversos museus de ciência que cobrem tópicos de matemática, mas o museu de Whitney, apelidado de MoMath, será desprovido de dinossauros e planetários, focando no abstrato.
"Eles são um grupo de idealistas dedicados", disse Sylvain E. Cappell, matemático da Universidade de Nova York e membro do conselho consultivo de museus, sobre Whitney e sua equipe.
Ainda sem o museu, Whitney conduz periodicamente passeios guiados para apontar as maravilhas matemáticas que podem ser vistas em Manhattan. Aos 42 anos, ele exala um entusiasmo pueril quando fala sobre galhos de árvores que se cruzam em ângulos retos, ou mostra que os parafusos dos hidrantes de Nova York são pentagonais - em vez da variedade mais comum, com seis lados.
Há três anos, ele trabalhava com algoritmos na Renaissance Technologies, uma empresa de investimentos privados que usa modelos matemáticos para escolher onde investir o dinheiro. Depois de uma década ali, ele começou a buscar um novo caminho de carreira "com um valor socialmente redentor mais direto", conforme sua explicação.
Então, ele soube que o museu de matemática em Long Island, chamado Goudreau, havia fechado. Começou a pensar que deveria existir um museu da matemática e que ele deveria ser seu criador. "Eu realmente senti que havia encontrado meu propósito", disse Whitney. "Não pretendo ser pomposo, mas aquilo era algo que realmente se encaixava com toda a minha vida de experiências, habilidades, gostos e aí por diante".
Reforçar a educação matemática
Em sua visão, o MoMath será uma pequena forma de reforçar a educação matemática nos Estados Unidos. Durante anos, estudantes americanos obtiveram resultados medianos em comparações internacionais de habilidades matemáticas, e uma preocupação muito ouvida é que o país poderia perder sua capacidade tecnológica.
Embora Whitney cite essa dinâmica como uma razão para sua jornada, ele é também um realista. Sim, o museu pode servir como um catalisador intelectual e recurso de ensino, mas somente ele não irá elevar as notas em matemática. "Certamente não estou contando com isso", disse.
Em vez disso, a missão do museu é moldar posturas culturais e dissipar a má reputação que a maioria das pessoas atribui à matemática. "Este é o único campo em que você pode ir a uma festa e conversar orgulhosamente sobre como você é péssimo", explicou Whitney.
Ele espera que o museu possa inspirar ao menos alguns a mergulhar mais profundamente na matemática. Ele imagina dividir uma avançada pesquisa matemática em pedaços que visitantes entusiasmados ajudariam a solucionar. "Queremos ser um local onde essa fagulha possa se incendiar", disse.
Paixão pelos cálculos
Para Whitney, a fagulha veio após uma fratura na clavícula. Aos 14 anos, ele participou de um acampamento matemático da Ohio State University - sua chance de escapar de casa no verão, contou ele, não para aprender matemática, um assunto que considerava tedioso e simples. Durante uma partida de futebol, ele colidiu com alguém maior e acabou machucado. Sem nada melhor para fazer, examinou os grupos de problemas que vinha ignorando.
Os problemas eram diferentes daqueles da escola, abrangendo diferentes ramos da matemática e destacando as conexões entre eles. "Apaixonei-me pela matemática naquele verão e desde então tive um caso de amor infinito", afirmou ele.
Após se formar em matemática em Harvard e obter seu doutorado na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, ele lecionou na Universidade de Michigan antes de entrar para a Renaissance Technologies. Whitney trabalha num modesto escritório em Midtown, recheado de enigmas matemáticos e esculturas, onde ele e uma equipe de 20 pessoas debatem sobre exposições para o museu - que, atualmente, corresponde a um espaço vazio de 1,8 mil m2.
Uma ideia é um grande cubo com orifícios quadrados perfurados em cada lado, uma estrutura conhecida como 'esponja de Menger'. Quando um visitante puxa o cubo diagonalmente, os orifícios se tornam estrelas de seis lados. "As pessoas sentem uma emoção do tipo: 'Minha nossa, isso é muito legal'", explicou George Hart, diretor de conteúdo do museu. "É um ótimo exemplo de como a matemática pode lhe oferecer grandes surpresas".
A inauguração está mais de um ano à frente, mas Whitney já está sonhando mais alto: um museu maior, com impacto cultural palpável. "Existem muitos mitos sobre a matemática por aí", disse ele - ela é difícil, é chata, é para meninos, é inútil na vida real. "Todos esses são mitos culturais que queremos destruir".