sábado, 15 de outubro de 2011

Inácio Araújo: Perda de Cakoff é absurda para vida cultural


Claudio Leal
Fundador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o crítico Leon Cakoff morreu nesta sexta-feira (14), aos 63 anos, na capital paulista. Desde dezembro de 2010, ele enfrentava um câncer. O velório será realizado no MIS (Museu da Imagem e do Som, av. Europa, 158).


Futura Press
Leon Cakoff enfrentava um câncer desde dezembro de 2010
Leon Cakoff enfrentava um câncer desde dezembro de 2010

Em maio, Cakoff publicou no caderno Ilustríssima, da Folha de S.Paulo, uma longa narrativa - "Na beira do abismo" - sobre a descoberta dos dois tumores, a cirurgia e o pós-operatório. "Será uma luta contínua, que começou com um câncer de pele, o melanoma maligno que me deu trégua desde 2002 e agora volta a me atacar o corpo", descreveu.
O crítico da Folha, Inácio Araújo, considera "perturbadora" a morte de Cakoff e destaca o papel da Mostra, a partir de 1977, na exibição de filmes proibidos pela ditadura militar:
- É muito perturbador. Ele é uma pessoa central não só na vida cultural paulistana, mas também na brasileira. E não de hoje, mas de muitos anos, quando nem se podia ver filme direito. Alguns filmes eram proibidos e ele trazia para a Mostra. É uma perda absurda, brutal, terrível. É muito ruim, de fato, perdê-lo - lamenta Araújo.
André Setaro, crítico de Terra Magazine, destaca o protagonismo de Cakoff na divulgação do cinema iraniano:
- Leon Cakoff foi o principal promotor da introdução do cinema iraniano e outras cinematografias, como a chinesa, no Brasil. Ele mostrou esses filmes na Mostra. E ficou amigo de diretores como Abbas Kiarostami. O Brasil conhece o cinema iraniano e asiático por causa de Leon Cakoff. A Mostra dele é pioneira. Começou nos anos 70. Ninguém tinha como ele uma relação internacional. Os contatos dele são extraordinários. Ele trouxe Pedro Almodóvar e o levou para o programa "Roda Viva". Ele trouxe muita gente e revelou muita gente. Antes disso, foi excelente crítico de cinema. Precedeu Inácio Araújo na Folha de S.Paulo. Largou a crítica em jornal para se dedicar "full time" à Mostra. É uma ausência muito grande.
Em nota, a Mostra destacou a importância do seu fundador para a "resistência cultural" à ditadura: "Desde a primeira edição, Leon travou uma luta ferrenha contra a censura imposta pelo regime militar, trazendo filmes até por meio de malas diplomáticas de embaixadas e consulados. Foi assim que a Mostra exibiu filmes inéditos vindos da China, Cuba, União Soviética, França e dos mais distantes países".
No texto "Na beira do abismo", Cakoff revelou seus instrumentos para não desanimar-se durante a luta contra o câncer: "Falta agora vencer mais esta luta! E, desta vez, com ferramentas de autoajuda que de novo busco nos filmes: de cabeça erguida como James Stewart nos filmes de Capra; de corpo e alma, como nos filmes de Bergman; com espírito elevado, como os anjos de Wim Wenders; com otimismo, como nos escombros do neorrealismo italiano... ou até mesmo com a irreverência de um Totó que nunca se deixou abater no pior dos cenários".