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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Brasil mais perto do mundo da arte


Ou seria mais justo dizer que o mercado mundial de arte se aproxima do Brasil, com a primeira exibição nacional de obras que vão a leilão na Sotheby’s em novembro

Soraia Yoshida
Xinhua
Funcionário da Sotheby's apresenta a obra "Three Jackies", de Andy Warhol, que vai a leilão em novembro
Fernando Botero e Di Cavalcanti dividem uma parede em que as obras de pintores latino-americanos contemporâneos ganham destaque na Casa Fasano, em São Paulo. A pouco metros dali, a parede é tomada por Three Jackies, de Andy Warhol. Essas obras são algumas das atrações de um coquetel em que empresários e colecionadores brasileiros poderão ver ainda, bem de pertinho, criações de Mark Chagall, Lichtenstein e Alfred Sisley. Os quadros, um total de 19 obras de arte, num valor perto de US$ 20 milhões, integram a primeira mostra exclusiva que a casa de leilões Sotheby’s realiza no Brasil. O evento funciona como uma espécie de "degustação" de grandes obras de arte contemporâneas, impressionistas, modernas e latino-americanas que irão a leilão em novembro. A intenção da Sotheby's é atrair colecionadores e galerias que possam se interessar por comprar alguns dos quadros.
É um privilégio e tanto. Normalmente, a Sotheby’s realiza esse tipo de evento em cidades como Nova York, Paris, Londres e, eventualmente, Doha. Mas Brasil? “Está havendo um interesse ampliado da clientela brasileira por arte”, afirma Pedro Corrêa do Lago, da Sotheby’s Brasil. “As fortunas mudaram de patamar e o que era muito carro antes para um colecionador brasileiro, agora já não é mais”.
A exposição marca a abertura do escritório da Sotheby’s em São Paulo. E vem confirmar que o Brasil tem lugar garantido entre os mercados emergentes interessados e interessantes para galerias e casas de leilões, como mostrou reportagem da edição de setembro de Época NEGÓCIOS. “Um evento como este desmistifica o mundo da arte, criando um canal de acesso para quem está interessado em colecionar”, afirma Katia Mindlin Leite Barbosa, presidente da Sotheby’s Brasil. Ela já trabalha com a companhia há 25 anos, mas reconhece que hoje as possibilidades são muito maiores de o país integrar o circuito e de os empresários locais desenvolverem o espírito do mecenato.
“Seria maravilhoso que o Brasil desenvolvesse uma classe de empresários que fosse interessada em assumir o papel do mecenas, até para aumentar o acervo dos museus”, diz Corrêa do Lago. Nos Estados Unidos, a iniciativa privada banca grandes museus que são referência, como o MoMA, em Nova York, e os Carnegie Museums, em Pittsburgh. “Tudo o que torna os museus americanos tão ricos não se aplica aqui”, diz Corrêa do Lago. Na Europa, o Estado mantém verdadeiros santuários de arte, como o British Museum, em Londres, o Louvre, em Paris, o Museu do Prado, em Madri, e o Museu Van Gogh, em Amsterdã. “Aqui o modelo ideal é da Pinacoteca, que tem participação do Estado, mas conta com um conselho e uma sociedade de amigos”, afirma Pedro Corrêa do Lago. “Os franceses quando vêem isso, enlouquecem”.
O que falta para que o país dê esse salto também é fruto da intrincada herança da ditadura brasileira, quando a arte ainda era vista como um passatempo de ricos. Quem decidir comprar uma obra de arte no exterior e quiser trazê-la ao Brasil, tem que pagar imposto de importação e ICMS, o que encarece em 50% o preço da aquisição. Nesse sentido, o tratamento que é dado ao mercado de arte é parecido com o empregado à indústria dos artigos de luxo, que pagam taxas de até 75%. E que, mesmo assim, cresceu bastante no país a ponto de atrair as grandes companhias. “Com a diferença que a arte tem um caráter educativo, que o luxo não tem”, diz Pedro Corrêa do Lago.
Essa taxação faz com que muitos colecionadores prefiram comprar as obras e deixá-las em suas residências no exterior. Também anula quaisquer esforços para recompor ou ampliar acervos de museus brasileiros. Afinal, quem vai comprar uma pintura de US$ 10 milhões, teria de arcar com outros US$ 5 milhões extras só para trazer o quadro no Brasil – mesmo com o objetivo de doá-lo a um museu. A conta não fecha.
Um projeto de emenda constitucional que desonera a compra de obras de arte está parado há anos em Brasília, sem levantar muito interesse dos parlamentares. A esperança de Katia Mindlin Leite Barbosa é que a mudança no cenário político traga também uma visão diferente para o mercado de arte, que faça a lei caminhar. “Até mesmo nisso, um evento como este marca uma nova etapa na abordagem mais madura e na inserção no mercado internacional”, diz. Ao que Pedro Corrêa do Lago replica. “Imagina o Brasil chegar a ser a quinta maior economia do mundo, como muitos esperam, sem ter um museu à altura?”. Não dá. 

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