terça-feira, 15 de novembro de 2011

Relicário secreto

Projeto ‘O museu que não se vê’ revela obras que são mantidas fora das exposições no Museu Imperial

UM DOS missais do império, banhado a ouro, e todo pintado à mão, com desenhos de espécies locais


PEDRO KIRILOS / FOTOS DE PEDRO KIRILOS
De todo o acervo escondido no Museu Imperial, os cerca de oito mil livros raros da biblioteca são algumas das obras que mais impressionam. Entre as relíquias estão missais pintados à mão com desenhos da biodiversidade local, obras dedicadas ao imperador Dom Pedro I, revistas antigas de moda — sim, naquela época isso também era importante — e o missal que pertenceu à Princesa Isabel.

— É uma emoção pegar nesse missal. A Princesa Isabel segurava quando estava alegre, quando estava triste. Imagina quantas vezes ela não segurou isso aqui, pedindo orientação para saber se assinava ou não a Lei Áurea — ressalta a museóloga Claudia Maria Souza Costa, responsável pela biblioteca.

Em sua maioria, as obras chegaram ao museu por doações de intelectuais e hoje totalizam cerca de 55 mil títulos no acervo. O livro mais antigo é de 1567.

— Na década de 40, quando Getúlio Vargas inaugurou o museu, a biblioteca foi criada com o objetivo de reunir um acervo para pesquisar o período e a família real, pois quando ela foi embora, em 1889, muita coisa se perdeu — conta Claudia, que completa: — A biblioteca tem um material incrível, porém, muito sensível. Por isso, nem tudo pode ficar exposto.

Ela também revela outras curiosidades do Império:
— O imperador tinha um hábito engraçado, principalmente quando vinha a Petrópolis. Ele visitava as escolas e tinha a cadeira dele em cada sala. Sentava-se e acompanhava as aulas. Imagina o medo que os professores sentiam!

Também chama a atenção um livro que pertenceu ao imperador, com anotações feitas pelo próprio, além de caricaturas de Angelo Agostini, um dos precursores no assunto, que retratavam a realeza em modos nada lisonjeiros, incluindo Dom Pedro II em cima de sacos de dinheiro.

— Para você ver, nada mudou, e o mais curioso é que o imperador adorava — comenta Claudia.
Outro setor do Museu Imperial que guarda uma riqueza incalculável é o arquivo histórico. Documentos, fotografias, mapas e muitas outras relíquias estão reunidas nas 57 coleções.
O documento mais antigo é de 1249, e todos ficam armazenados em mapotecas, estantes deslizantes ou caixas especiais.

— Recebemos poucas doações de documentos, e isso dificulta o nosso trabalho. Mesmo assim, nos desdobramos — conta Neibe da Costa, responsável pelo acervo.

Recentemente, os diários de viagens do imperador Dom Pedro II, que totalizam mais de 40 mil documentos, foram lidos e lançados em livro exclusivo, mas novos documentos foram descobertos, e outra edição deve sair até 2014, assim que a equipe terminar a leitura.

— Com certeza o trabalho revolucionará o assunto. E outra novidade é que vamos publicar também os relatos da imperatriz — diz Neibe.

Preferido por muitos frequentadores do “Museu que não se vê”, o setor de museologia preserva raridades, como quadros inéditos do pintor francês Debret e um quadro de Duque de Caxias, um dos únicos que o retratam com olhos claros.

— Telefonaram do Ministério da Guerra e disseram que nós tínhamos a única tela fiel do Duque de Caxias — revela Ana Luisa Camargo, museóloga responsável pelo setor, que revê as peças diariamente.

Porcelanas, tapetes, cristais e outras raridades estão guardadas no setor. Muitas permanecem em reverva técnica.

— Por exemplo, nem todos os 300 leques são expostos. Eles só entram em mostras temporárias. No palácio, a obra fica exposta a mais riscos — diz Ana.

Ela conta que as peças chegam até o museu de diversas formas. Às vezes, a Comlurb é a doadora:
— Temos uma coleção inteira de peças relacionadas à fotografia que foram encontradas no lixo.
O Laboratório de Conservação e Restauração é a UTI do Museu Imperial. Toda peça passa primeiro por lá, como é o caso da berlinda de aparato, construída em 1837 e cuja restauração poderá ser acompanhada pelo público, no pátio do Museu Imperial.

— O trabalho é lento, e a nossa equipe é pequena. Por isso, pensamos em restaurar deste modo — conta Eliane Zanatta, única restauradora do museu.

O setor de educação é o que desenvolve trabalhos com o público infantil, como teatro de fantoches e passeios escolares. O famoso Sarau Imperial, dramatização interativa de uma atividade típica de lazer do século XIX, é outro projeto do setor. Nele, personagens históricos como a Princesa Isabel e suas amigas também são representados.

— A nossa função é integrar alunos e crianças com projetos que ensinam e comparam a realidade de antigamente com a nossa — diz Regina Resende, coordenadora do setor.
Quem ficou curioso pode agendar a visita ao roteiro “O museu que não se vê”. Ela ocorre sempre na última quarta-feira do mês, das 9h às 14h, para grupos de cinco a 15 pessoas. Informações: (24) 2245-5550 e < museuimperial.gov.br >.