domingo, 24 de novembro de 2013

Devolução de arte confiscada por nazistas esbarra em lacunas legais

Leis alemãs e internacionais fornecem parâmetros insatisfatórios para herdeiros e Justiça decidirem casos como o do "Tesouro de Munique". Nos 6.300 museus da Alemanha, apenas 60 peritos elucidam questões de procedência. 



"Casal em paisagem", de Conrad Felixmüller, faz parte do "Tesouro de Munique"


"Se eu fosse documentar a procedência de todas as peças no nosso museu, ia estar ocupado até o dia da minha aposentadoria – e ainda faltam mais de 25 anos", diz Marcus Kenzler, rindo, e acena na direção de alguns dos objetos expostos no Museu Estadual de Arte e História da Cultura da Baixa Saxônia, na cidade de Oldenburg.

A instituição abriga cerca de 30 mil peças, de pinturas, desenhos e gravuras até móveis. Desde que assumiu a função de pesquisar a proveniência do acervo, há dois anos e meio, Kenzler só identificou quatro delas como raubkunst (arte roubada ou saqueada). Assim se denominam, na Alemanha, obras que o regime nazista extorquiu de seus proprietários de direito – por exemplo, colecionadores judeus.

"No caso de duas peças, as negociações de restituição com as famílias dos donos originais já transcorrem. Quanto às duas outras, ainda estou fazendo a pesquisa genealógica, para descobrir se há descendentes dos antigos donos", relata. Isso demonstra como o processo da identificação de origem de obras de arte é longo e trabalhoso.

Direito alemão não contempla Holocausto
Marcus Kenzler investiga proveniências no Museu Estadual da Baixa Saxônia

Kenzler considera sensacionalista o atual debate sobre a enorme coleção do negociador de arte Hildebrand Gurlitt, encontrada no apartamento de seu filho, Cornelius, em Munique. Para o perito, "não são sérias" as reivindicações de que se investigue "imediatamente" se há, entre as quase 1.400 peças, obras extorquidas pelos nazistas. Pois, segundo ele, pesquisa exige tempo.

Outro fator, conforme Kenzler, é a falta de recursos de pessoal e financeiros: para os mais de 6.300 museus da Alemanha, só existem cerca de 60 peritos como ele. Além disso, o setor de pesquisa de procedência só recebe 2 milhões de euros por ano do Ministério da Cultura, sua principal fonte de financiamento.

Em entrevista à DW, o advogado de Munique Hannes Hartung, especializado em direito da arte, aponta, ainda, o dilema causado pela falta de parâmetros jurídicos no que tange à "arte saqueada".

Ele afirma que a legislação alemã é algo criado para regular relações comerciais ou jurídicas, mas incapaz de lidar com um acontecimento como o Holocausto. "É preciso encontrar regras de prescrição que tornem possíveis recursos jurídicos para restituição da arte roubada pelos nazistas", exige Hartung.

"Roubada" ou "degenerada"?

Mas também em nível internacional não há regulamentação legal vinculativa sobre o tema. É fato que, após a Segunda Guerra Mundial, as leis impostas pelos Aliados (1947) e pela República Federal da Alemanha (1957) normatizavam a restituição. No entanto, elas não tinham validade na Alemanha Oriental, sob regime comunista.

Em 1998, 44 países, incluindo a Alemanha, se encontraram em Washington para a Conferência sobre Bens da Era do Holocausto. Os participantes apenas acordaram "princípios não vinculativos" para a arte confiscada pelo regime, ficando os respectivos países encarregados de agir "no contexto de suas próprias disposições legais". Assim, não é de espantar que, até agora, se tenha avançado tão pouco na devolução aos proprietários.

Hartung também enfatiza a necessidade de verificar-se muito bem se eventuais objetos reencontrados são, de fato, arte confiscada pelos nazistas. Isso implica apresentar, para cada uma das peças, provas de que houve "arrestamento associado a perseguição". Essa regra também se aplica às quase 1.400 obras da coleção Gurlitt.

Por outro lado, em se tratando da arte difamada pelos nazistas como "degenerada" e confiscada sob essa alegação, a base jurídica é totalmente outra. "Nesse caso, foi o Estado nazista que saqueou a si mesmo: afirmou-se que as peças não eram arte, por isso elas foram confiscadas do próprio patrimônio público, e em geral vendidas ou trocadas por outras."
"Cena de rua berlinense", de Ernst-Ludwig Kirchner, 1913

Confiscos nazistas seguem lícitos

Também Kenzler considera "difícil" a situação legal relativa ao tema. Somente da casa de sua própria família foram retiradas em 1937 mais de cem obras classificadas como "arte degenerada".

Documentos comprovam que, já na época, cerca de uma dúzia delas foi parar nas mãos de Hildebrand Gurlitt. Ainda não foi esclarecido se elas se encontram na coleção descoberta no apartamento em Munique.

De uma forma ou de outra, o problema para Kenzler e seus colegas é que a legislação não lhes dá espaço para agir. "Naquela época, os confiscos ocorreram sobre a base no direito vigente, o qual não foi revertido mesmo depois de 1945."

"Em alguns casos, os proprietários de direito e o Estado chegaram a um acordo amigável", observa o advogado Hartung. Ele cita como exemplo as negociações sobre o óleo Cena de rua berlinense, de Ernst-Ludwig Kirchner, originalmente de posse de um colecionador judeu.

O quadro foi arrematado em 2006 por 38 milhões de dólares, na casa de leilões Christie's, em Nova York, cabendo aos herdeiros parte da quantia. "Porém, tanto este como outros casos envolveram processos longos e dolorosos", ressalva Hartung.

Mais do que boa vontade

O jurista de Munique considera despropositada a forma como a mídia e os círculos de arte vêm lidando com Cornelius Gurlitt, filho do colecionador atuante durante o nazismo. "Não é correto prejulgá-lo como criminoso, em vez de recorrer ao diálogo e ao entendimento", critica.
Hannes Hartung é especialista em direito da arte

"Além disso, no passado Gurlitt se mostrou um parceiro de negociações muito acessível", destaca Hartung, acrescentando que no caso de O domador de leões, de Max Beckmann, ele entrou rapidamente em acordo com os herdeiros do marchand Alfred Flechtheim, dividindo com eles a soma paga pelo quadro. "Por outro lado, na ocasião o colecionador foi tratado de forma adequada", acentuou Hannes Hartung.

Assim, tão mais importante é aprender as lições que o caso do "Tesouro de Munique" propõe, aconselha o especialista em arte. "Precisamos de regulamentações legais que possibilitem um processo transparente de restituição, não só com base na boa vontade, mas sobre o fundamento do direito e da justiça. E aprendemos que é preciso evitar prejulgamentos."



fonte:
http://www.dw.de/devolu%C3%A7%C3%A3o-de-arte-confiscada-por-nazistas-esbarra-em-lacunas-legais/a-17240340

DW.DE

Porque continuamos a não consumir Cultura? Falta de Educação e dinheiro ( .pt )


Os portugueses são dos cidadãos da União Europeia com menores taxas de participação em actividades culturais, segundo o relatório do Eurobarómetro. São números que “não nos ficam bem”, diz o secretário de Estado da Cultura. Falta de investimento, fraca aposta na educação e baixo poder de compra explicam parte destes resultados dizem diversos especialistas e responsáveis.












Vamos menos ao cinema, quase não vamos a bibliotecas públicas nem visitamos museus. A espectáculos de teatro, dança ou ópera vamos muito pouco; só a concertos, de vez em quando. Não temos grande interesse em ler um livro, nem costumamos visitar monumentos. Mas vemos e ouvimos muita televisão e rádio. O retrato não nos deixa ficar bem mas é assim mesmo que, em traços largos, saímos representados no inquérito do Eurobarómetro sobre a participação em actividades culturais na União Europeia. Nele, Portugal surge ao fundo da tabela, ao lado de países como a Roménia ou a Bulgária. O que significa que os portugueses - tal como os romenos ou os búlgaros - quase não se envolveram no último ano em actividades culturais. A crise económica explica parte dos números mas diz-nos quem conhece o meio que o problema está muito para além disso. Falta estimular o ensino cultural nas escolas. Falta os decisores políticos, e a sociedade em geral, olharem para a cultura como um bem essencial. E falta um maior investimento.

Estas são as principais conclusões que se tiram depois de se ouvirem vários nomes reconhecidos da área. Há quem se surpreenda com os números, quem já estivesse à espera destes dados por estarem em linha com a tendência dos últimos anos e quem questione a forma como o inquérito da Comissão Europeia foi realizado. Mas há um adjectivo que todos repetem: “preocupante”.

Sermos tão pouco activos culturalmente é preocupante e é preciso perceber o que está a acontecer com a Cultura em Portugal. O que implica também questionar o estado da Educação e do sistema de ensino, dizem. Afinal, porque é que os portugueses são dos cidadãos da União Europeia com menores taxas de participação em actividades culturais? Porque é que Portugal, por exemplo, é o país onde há maior falta de interesse pela leitura? E porque é que só 6% dos inquiridos, em Portugal, tem uma actividade cultural frequente? A média europeia não é particularmente alta mas as diferenças são grandes, como é o caso da Suécia (43%), da Dinamarca (36%) e dos Países Baixos (34%), onde os cidadãos descrevem a sua taxa de participação como elevada ou muito elevada. Na vizinha Espanha esta taxa é de 19%. Qual é então o problema dos portugueses?

“É uma questão de educação”, diz ao PÚBLICO Paulo Cunha e Silva, programador cultural e novo vereador da Cultura da Câmara do Porto, que acredita que em Portugal “não se cultiva a Cultura”. “'De pequenino se torce o pepino.' Este ditado popular explica esta situação com eficácia, é na infância que se devem começar a criar hábitos culturais e isso não acontece”, defende Cunha e Silva, que deste Eurobarómetro se surpreendeu mais com a fraca adesão às salas de cinema.

Os dados do inquérito revelam que 71% dos cidadãos portugueses não foram uma única vez ao cinema nos últimos 12 meses – uma diferença de quatro pontos percentuais quando comparado com os dados de 2007 (ano do último Eurobarómetro sobre a participação em actividades culturais). Segundo os últimos resultados divulgados pelo Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), de Janeiro até Outubro registaram-se menos 1,2 milhões de espectadores nas salas de cinema portuguesas, o que representa uma quebra de 10,6% em relação ao mesmo período de 2012. A queda já vem do ano passado mas em 2013 tem vindo a acentuar-se.

“A não frequência das salas de cinema com esta dimensão é preocupante e é um indicador muito grave da crise social que estamos a atravessar, é que ir ao cinema não é só ver filmes de autor”, diz o vereador da Câmara do Porto, que vê no cinema uma das formas mais fáceis e populares de participar na Cultura. “Na sua dimensão de diversão e animação, o cinema poderia até funcionar como um escape para alguma tristeza ou depressão e por isso a não frequência das salas traduz uma expressão muito profunda da crise”, continua Cunha e Silva, considerando que é preciso parar para reflectir de que forma “este momento de patologia social que estamos a atravessar se está a reflectir nos hábitos das pessoas”.

Números que chocam
Para a professora catedrática da Faculdade de Letras do Porto e antiga ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, é uma questão de escolha a que a crise económica e social obriga. “Temos uma crise geral no consumo, que provoca, evidentemente, uma quebra no consumo cultural, até porque é neste que se corta habitualmente em primeiro lugar”, diz Pires de Lima, explicando que “entre gastar dez euros no supermercado ou na livraria, o cidadão comum não escolhe gastar cinco euros num lado e cinco euros noutro, gasta tudo no supermercado”. O mesmo exemplo é dado pelo escritor Vasco Graça Moura, que diz haver uma “opção óbvia” quando se trata de escolher entre “alimentar um filho ou ir a um concerto”. “A crise financeira obriga a prioridades rigorosas”, diz o presidente do Centro Cultural de Belém (CCB), não escondendo, no entanto, que, até ver os resultados do Eurobarómetro, pensava que “estávamos muito melhor”. “De algum modo, estes números chocam-me”, continua Graça Moura, para quem o problema da queda da leitura “está a tornar-se crónico em Portugal”. "Temos de dar mais atenção ao Plano Nacional de Leitura. É importante e pode ser uma ajuda."

Segundo os números do inquérito, apenas 40% dos portugueses leram um livro no ano passado, uma taxa significativamente mais baixa do que a média europeia, que é de 68%. Se olharmos para os países nórdicos, a diferença então é esmagadora: na Suécia 90% dos cidadãos leram um livro no ano passado e na Dinamarca a taxa é de 82%. De resto, a actividade cultural mais comum na União Europeia, e em Portugal, é assistir/ouvir programas na televisão/rádio (72% pelo menos uma vez nos últimos 12 meses – em Portugal 61%).

No que respeita à leitura de um livro, o relatório diz que os resultados são “fortemente” influenciados pelo nível de escolaridade, assim como, por exemplo, a idade se reflectiu como um factor determinante naqueles que vêem mais televisão ou ouvem rádio.

“A ideia com que fico depois de ver estes números é a de que ainda há muito a fazer, mas deixa algum optimismo perceber que são os mais velhos que estão mais tempo ligados à televisão e à rádio”, diz Fernando Pinto do Amaral, comissário do Plano Nacional de Leitura, explicando que “os mais novos são mais diversificados e dividem o tempo entre a leitura, o computador, o cinema”. “Ainda há alguma razão para pensar que nos mais novos a leitura ainda existe, enquanto nos mais velhos é mais complicado conseguir mudar hábitos”, explica. “As pessoas estão muitas vezes em casa, com poucos recursos financeiros, e a televisão é um meio muito fácil e directo que entra pela casa dentro”, continua Pinto do Amaral, para quem o cerne da questão é o “nível geral de educação do país e do interesse pela Cultura”. Ou, como diz Vasco Graça Moura: “Em Portugal há uma certa apatia por valores culturais”.

A deputada socialista e antiga ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, responsabiliza o discurso político actual que remete para segundo plano as actividades culturais. “A falta de importância que é dada à Cultura hoje é terrível. O discurso político que passa para os cidadãos é o de que não nos podemos preocupar com a Cultura quando há gente a passar fome, e esta é a mensagem que todos os dias se transmite para a opinião pública”, diz Canavilhas, que não tem dúvidas de que um “cidadão vulgar facilmente reproduz este discurso, quando há uns anos era do senso comum que a Cultura era importante para o quotidiano dos portugueses”.

“É preciso não deixar esmorecer o esforço que foi feito nestas últimas três décadas e que conquistou muitos degraus nos hábitos de consumo cultural, é que o que leva três décadas a ser construído, leva dois ou três anos a ser destruído”, alerta a deputada socialista, que vê na Educação a “chave para a mudança”. “Os indicadores da Cultura estão sempre ligados aos indicadores da Educação. Os países onde os hábitos culturais são mais consistentes são aqueles onde os níveis de Educação são mais elevados”, continua Canavilhas, explicando que investir na Educação é investir na Cultura. No entanto, a antiga ministra da Cultura do Governo de José Sócrates lamenta que além do desinvestimento que a Cultura enfrenta, também a educação esteja “num retrocesso sem precedentes”.

Isabel Pires de Lima dá o exemplo, recorrendo aos resultados deste inquérito, da frequência de bibliotecas públicas. Em Portugal, apenas 15% dos cidadãos visitaram uma biblioteca no último ano, registando-se uma quebra de nove pontos percentuais. Na Europa, a média é de 31%, também se verificando uma queda comparativamente com 2007, neste caso de quatro pontos percentuais. “É gravíssimo que haja uma quebra de nove pontos percentuais, tendo em conta o investimento bárbaro que se fez na rede de bibliotecas públicas”, aponta Pires de Lima, destacando que “no momento em que o país está quase coberto de equipamentos culturais, não seria de esperar uma quebra tão acentuada”. “Quando se investe barbaramente na Educação e não se percebe que investir um bocado mais em Cultura potenciaria imenso esse investimento em Educação, acontecem coisas como esta”, diz.

Para o presidente do Centro Nacional da Cultura, Guilherme d’Oliveira Martins, não há outra forma de conseguir reverter estes números que não seja a aposta no sistema de ensino. “É preciso que os pedagogos compreendam, e muitas vezes não compreendem bem, que a Educação artística está no princípio e não fim”, diz Oliveira Martins, defendendo que “a Cultura não é uma flor de botoeira, é algo que está no centro do desenvolvimento”.

Ao PÚBLICO, o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, reconhece que “estes números não nos ficam bem” e defende a necessidade de se reforçarem as políticas educativas com as políticas culturais. “Temos de ter em conta estes dados para reforçar a minha convicção de que a dinâmica de colaboração entre a área da Cultura e a área da Educação, desde o pré-escolar até ao ensino secundário, é absolutamente essencial”, diz Barreto Xavier.

No Parlamento, a 7 de Novembro, Barreto Xavier apresentou a Plataforma Educação-Cultura que pretende, precisamente, ser o eixo de desenvolvimento de políticas estruturais para as duas áreas. Será da responsabilidade desta Plataforma, por exemplo, o Plano Nacional de Cinema, que pretende promover a literacia para o cinema nas escolas, impulsionando a criação de novos públicos. Apesar do atraso na sua implementação, não estando ainda a funcionar em pleno, este foi um dos exemplos enumerados ao PÚBLICO pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC), que garantiu que “vai continuar a reforçar, a incentivar e a apoiar programas de carácter cultural e sobretudo a valorizar os conteúdos de temática cultural nos programas, metas e orientações curriculares, manuais escolares e outros recursos didáctico-pedagógicos”. Continuar-se-á também “a sensibilizar todos os agentes educativos para a importância da presença da Cultura, nas suas diversas formas”, acrescenta a resposta do ministério, onde se lê que os baixos índices de participação cultural se devem à “falta de escolarização e literacia das gerações seniores, que não foram incentivadas nem educadas para isso”.

“A evolução do sistema educativo português, dos índices de escolarização e de analfabetismo nos últimos 30 anos permitem compreender os resultados”, lê-se ainda na resposta, por email, do gabinete de comunicação do MEC, que acredita que nos próximos anos, “com base no desenvolvimento dos currículos em vigor no sistema educativo, poderemos vir a testemunhar uma inversão desta tendência”.

Cultura invisível

No entanto, o sociólogo Claudino Ferreira alerta que uma maior introdução das artes ao ensino geral “não exige só que se ponham mais conteúdos”. “É preciso que se pense como é que a relação com as artes nas escolas pode ser motivadora para os estudantes se interessarem”, diz o professor auxiliar da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais, defendendo também uma maior pró-actividade das estruturas culturais e artísticas. “Não há só muito a fazer por parte das escolas e dos professores, é preciso que também as instituições e os artistas apresentem propostas concretas para contribuir para os estudantes”, continua o sociólogo, admitindo, porém, que os tempos são de dificuldade para as estruturas. “A situação dos últimos anos é dramática e, por isso, quando olho para a frente vejo uma situação muito difícil para a Cultura”, explica Claudino Ferreira, lembrando a constante reformulação de prioridades a que as instituições culturais e os artistas têm vindo a ser obrigados. “E assim vão perdendo alguma capacidade de intervenção pública e desse ponto de vista os próximos anos não serão muito produtivos, não consigo ver uma recuperação do interesse e do voluntarismo para a prática cultural.”

Para Isabel Pires de Lima a dificuldade de que Claudino Ferreira fala existe por “continuarmos presos a modelos de desenvolvimento que privilegiam sobretudo aquilo que é imediatamente rentável e aquilo que decorre do mundo do que é contabilizável”. “É a invisibilidade da Cultura que faz com que seja tão difícil aos políticos, empresários e sociedade civil investirem na área”, diz a catedrática, sem acreditar numa mudança no futuro. O mesmo acontece, aliás, com Gabriela Canavilhas, que antevê uma descida ainda maior destes valores nos próximos anos. “Vamos sofrer nas estatísticas as consequências das políticas que têm estado em curso”, afirma a deputada do PS.

Barreto Xavier não se atreve a antecipar o futuro mas admite que há um problema de perspectiva e modelo. “É uma questão de mudança de mentalidades e a mudança de mentalidades demora eventualmente uma geração”, diz o secretário de Estado ao mesmo tempo que de alguma forma desvaloriza os números deste inquérito por existirem variáveis que não foram consideradas e pelo modo como algumas perguntas foram feitas.

No mesmo sentido, Miguel Lobo Antunes, administrador da Culturgest, em Lisboa, defende que os números deste Eurobarómetro não são fiáveis nem podem apoiar reflexões sérias por se afastarem, "por vezes largamente", de resultados de outras estatísticas feitas em Portugal sobre o mesmo tema. Mas revela que tem sentido na Culturgest uma redução de público. “Para que os portugueses sejam mais cultos, é claro que a educação, os meios de comunicação, as políticas culturais, têm uma importância fundamental mas também é importantíssimo o papel desempenhado pelos teatros, pelos centros culturais, pelos programadores, pelos artistas, pelos pais, pelos mais velhos, pelas pessoas, que podem contagiar outras”, diz Lobo Antunes.

Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura da Câmara de Lisboa, vê com a preocupação generalizada estes números mas destaca que eles não são desagregados por cidades e/ou regiões, onde acredita que poderão existir diferenças importantes. “Nomeadamente em virtude das características sociodemográficas da população ou do investimento que algumas cidades têm feito, como por exemplo Lisboa, para manter o nível da oferta e participação cultural, da promoção da leitura e da valorização das bibliotecas municipais”, atesta a responsável.

Guilherme d’Oliveira Martins volta a destacar: “Ainda há muito trabalho a fazer”. “Temos de tirar lições da crise porque esta crise diz-nos que se não apostarmos na Educação, na Cultura e na Ciência, teremos naturalmente grandes dificuldades.”No que ao secretário de Estado da Cultura diz respeito, fica o compromisso de “trabalhar mais e melhor na defesa de um modelo de desenvolvimento que tenha a Cultura no seu centro”.


fonte:
http://www.publico.pt/cultura/noticia/quando-foi-a-ultima-vez-que-foi-ao-cinema-e-ao-teatro-e-ha-quanto-tempo-nao-visita-um-museu-1613057

Maquete gigante de NY é destaque na reabertura do museu do Queens

Presente e passado convivem lado a lado em miniaturas de 900 mil prédios. Modelo criado em 1964 é constantemente atualizado.

Depois de dois anos de reforma, o Museu do Queens reabre as portas de alma renovada. As paredes deram lugar a vidraças, que convidam a luz e os visitantes a entrar. Erguido para a Exposição Universal de 1939, o prédio já foi sede da ONU e testemunhou momentos decisivos da história, como a divisão entre as Coreias do Norte e do Sul e a criação da Unicef.

Com a concorrência de alguns dos melhores museus do mundo, em Manhattan, o do Queens teve que buscar uma identidade própria. Ele aposta no público interessado na vivência cultural e promove eventos e discussões. Aos domingos, são oferecidos workshops de arte gratuitos para as famílias.

A maior atração do museu tem quase um quilômetro quadrado: uma maquete gigante de Nova York, que reproduz os cinco distritos da cidade. Criado para a Exposição Universal de 1964, o modelo é constantemente atualizado, o que é um enorme desafio diante de uma cidade onde tudo se transforma muito rápido.

Entre os 900 mil prédios em miniatura, presente e passado convivem lado a lado. No sul da ilha de Manhattan, as torres gêmeas do World Trade Center ainda reinam sobre a paisagem urbana. Com sua grande área verde, o Central Park domina a ilha mais visitada do mundo. Na maquete, o arranha-céu do Empire State Building tem menos de 40 centímetros.

Vista do alto, a cidade guarda mistérios que vão muito além de Manhattan, de onde a maioria dos turistas não sai quando visita Nova York. Com o novo museu, porém, o Queens acaba de ganhar mais um motivo para merecer o desvio.
 
 
 
 
 
fonte:
http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2013/11/maquete-gigante-de-ny-e-destaque-na-reabertura-do-museu-do-queens.html

Arte Bienal encerra com debate sobre museus e exposições

A 55.ª Exposição Internacional da Bienal de Arte de Veneza, sob o tema "O Palácio Enciclopédico", encerra após seis meses de exibição de 88 projetos artísticos nacionais, entre os quais o de Portugal, o cacilheiro "Trafaria Praia".



O certame, que constitui a mais antiga e importante bienal de arte contemporânea, foi dedicado ao tema geral "O Palácio Enciclopédico", e teve como vencedor, este ano, do Leão de Ouro, o Pavilhão de Angola, país que se estreou, tal como o Vaticano, as Bahamas, e as Maldivas.

Fontes da organização do Pavilhão de Angola e do Pavilhão de Portugal indicaram à agência Lusa que o primeiro recebeu 50 mil visitantes e o segundo, 100 mil.

A 55.ª Exposição Internacional da Bienal de Arte de Veneza encerra com uma conferência de imprensa prevista para as 11:00, com a presença do presidente do evento, Paolo Baratta, e Massimiliano Gioni, curador da mostra.

Durante a tarde haverá um encontro sobre "Museus e Bienais", com a presença de curadores e diretores de museus como Cristiana Collu, Alfredo Cramerotti, Bice Curiger, Abdellah Karroum, Achille Bonito Oliva, e Vicente Todolì.

"Luanda, Cidade Enciclopédica" foi o título do projeto de Angola, instalado num palácio que esteve encerrado nos últimos vinte anos.

O cacilheiro "Trafaria Praia", criado pela artista Joana Vasconcelos para representar Portugal na Bienal de Arte de Veneza 2013, regressa a Lisboa em dezembro com um programa de convites para ir à Colômbia, Monte Carlo, Macau e Estados Unidos, como adiantou a artista à agência Lusa.

O "Trafaria Praia" chegou a Veneza no final de maio, depois de cerca de duas semanas de viagem desde Lisboa, e foi oficialmente inaugurado ao público no dia 31 desse mês, atracado junto aos Giardini.

Antes da partida, ainda em Lisboa, o "Trafaria Praia" foi alvo de um restauro no estaleiro da Navaltagus, no Seixal, e de uma transformação no interior, e no exterior, concebida pela artista para esta 55.ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza.

O barco foi coberto no exterior com uma faixa de azulejos que mostram uma vista panorâmica de Lisboa, e o interior foi revestido a cortiça, material também usado para mobiliário do barco.

Também no interior, a artista criou uma intervenção em têxteis em tons de azul e branco, semeados de pontos de luz.

A viagem de regresso a Lisboa, disse Joana Vasconcelos à agência Lusa, pode demorar de 14 a 20 dias, e será feito nos mesmos moldes que a ida, rebocado por um navio.


06:20 - 24 de Novembro de 2013 | Por Lusa 
fonte:
http://www.noticiasaominuto.com/cultura/135750/bienal-encerra-com-debate-sobre-museus-e-exposicoes#.UpH02CdEL74