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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

“Nossa prioridade agora é a América Latina” - "Espero que num futuro próximo os brasileiros possam conhecer o Louvre em seu idioma”, diz Jean-Luc Martinez, presidente-diretor do Museu

Em 3 de abril de 2013, Jean-Luc Martinez tornou-se, aos 49 anos, uma das figuras mais importantes da República Francesa. Sem dúvida, o cargo de diretor-presidente do Louvre confere esse status, dada a ilimitada projeção simbólica e cultural, mas também política, diplomática e econômica, do museu mais importante do mundo. Tataraneto de espanhóis – de Valência e Almería – graduado em arqueologia e história da arte, especialista em esculturas da antiga Grécia, tão loquaz em seu discurso quanto guardião de suas formas, contrariou todas as apostas e, para surpresa de quase todos, substituiu Henri Loyrette como o principal responsável pelo Louvre.




Jean-Luc Martinez, presidente-diretor do Louvre. / CHRISTOPHE ENA (AFP)


Aproveitando uma recente visita ao Louvre-Lens quando do primeiro aniversário da primeira filial do Grande Louvre, localizada nesta localidade da região de Nord-Pas de Calais (900.000 visitantes em um ano), conversamos com Jean-Luc Martinez sobre as questões relativas às incessantes metamorfoses experimentadas pelo mundo dos museus.

Não somente a(s) crise(s) econômica(s), mas também a irremediável necessidade/obrigação dos diretores dos grandes centros de arte mundiais de não ficarem sentados contemplando as teias de aranha do seu decadente esplendor, o que vai motivando mudanças de modelo, na forma de pensar os museus, de se abrirem mais e melhor ao público, o que nem sempre foi o caso. “O Louvre”, afirma Martinez, “é o símbolo de uma transformação radical no mundo dos museus. O museu, tal qual surgiu na Europa do século XVIII, era um lugar destinado à formação de artistas, e isso pressupunha uma apresentação sem demasiadas explicações científicas ou de divulgação, um conjunto de obras que se organizava segundo o gosto da época. Tudo isso mudou radicalmente. Hoje, nos museus, subjaz uma tensão entre o aspecto mais relacionado ao ‘acontecimento’, ou seja, o fator temporal, e a dimensão de permanência”.

Para Martinez, existe um problema histórico cuja solução deve ser encontrada por todos os grandes templos de arte: o afastamento do público. E não se esquiva de um tom de autocrítica, que traz como consequência uma decidida aposta por um conceito popular, e antielitista, das coleções artísticas e se sua apresentação. “Os tempos mudam, e já é hora de pensar mais no público. O academicismo está no DNA, na gênese dos grandes museus europeus, claro que sim, mas hoje, quando perguntamos por que as pessoas não vão aos museus, entendo que não vão porque notam perfeitamente que esses lugares foram montados e às vezes continuam montados, antes de tudo, pensando nos artistas e nos historiadores de arte. Esse sentimento de frustração popular esteve na origem do nascimento, na França, mas também em outros países, como o Canadá, de centros como o Pompidou, a Cidade das Ciências e a Cidade da Música, lugares que, note bem, não usam de forma alguma a palavra museu, lugares em que o público está no centro de tudo e onde se oferecem muitas coisas: concertos, bibliotecas, palestras... e obras de arte. Bem, pois esse modelo está chegando agora aos grandes museus acadêmicos e museus de belas artes tais quais os conhecemos. E isso me agrada. Nosso objetivo prioritário não são os artistas nem os historiadores, mas o grande público.”




É fácil a sobrevivência dos museus como os entendemos? Nada mais discutível. Para que as verbas dos Estados-nação, em colaboração com o capital do setor privado, continuem permitindo que o público se aproxime do legado dos mestres em condições adequadas (já se sabe, alimento da alma, esse luxo segundo alguns políticos) é necessária uma engrenagem perfeita.

Jean-Luc Martinez considera paradigmático o caso francês: “Tudo isso não se consegue da noite para o dia, mas é produto de um trabalho intensivo e de uma dedicação incansável; também de uma espécie de vocação de preferência cultural e de decisões políticas no mais alto nível (obviamente esse é o caso do Louvre-Lens, um museu ultramoderno de arte clássica em uma das regiões economicamente mais pobres da França). Veja, sou francês e vivo em um país no qual a cultura é política. Aqui acreditamos de verdade que o ensino da literatura, da leitura, das artes, da música... são indispensáveis para um cidadão. Quando se é francês, isso está nos genes”.




E acrescenta, fazendo um paralelo com o país de seus antepassados: “O caso francês é especial, e suspeito que na Espanha não funcione exatamente assim, e que o nosso modelo não poderia ser reproduzido em seu país: isso pode soar pomposo, mas os acervos de arte do Louvre não pertencem ao Louvre, mas ao povo francês, à nação francesa, e com isso podemos divulgá-los sem nenhum problema. Não sei se o Prado estaria disposto a instalar 200 obras próprias em um museu de Alicante, por exemplo. Seria problemático. São concepções distintas, e estruturas de Estado, também”.

O Museu do Louvre tem, segundo seu diretor, “vocação francesa, porque é um museu nacional”. E, dito isto, supõe-se que também deva ter uma profunda vocação internacional. Entenda-se, de políticas e finanças internacionais... Caso contrário, qual é a razão de ser do futuro Louvre-Abu Dhabi, que abrirá suas portas em 2015? A cultura e nada mais do que a cultura? “Nosso museu tem também uma vocação universal”, se apressa em dizer Martinez quando perguntado sobre a “antena” árabe do Louvre, “e nessa vocação se enquadra o projeto do Louvre-Abu Dhabi que está sendo construído: não é imperialismo cultural, e, sem querer ser ingênuo, tampouco a obtenção de lucros é o nosso principal objetivo. Mas chamemos as coisas pelo nome: é certo que vendemos uma marca (os emires de Abu Dhabi não hesitaram em pagar cerca de 1,6 bilhão de reais apenas para usar o nome Louvre), embora o que busquemos seja o reconhecimento internacional do nosso prestígio e do nosso bom trabalho. As exposições do Louvre nos Estados Unidos e no Japão têm um enorme sucesso. A exposição de pintura do século XIX que montamos em Tóquio recebeu 1,6 milhão de visitantes, um recorde”.




E, falando no do “esforço” internacional: o primeiro “cliente” estrangeiro do Museu do Louvre é o público norte-americano: 900 mil visitas em 2013. Em segundo lugar vem o público chinês, com 440 mil visitantes; o surpreendente terceiro maior cliente estrangeiro é o Brasil, seguido por Itália, Alemanha e Japão. Ao somar todos os visitantes latino-americanos, o subcontinente aparece como o segundo principal cliente do Louvre. E, como tal, é uma prioridade absoluta. “Sim, uma de nossas prioridades neste momento é a América Latina. Espero que num futuro próximo os brasileiros possam conhecer o Louvre em seu idioma.” Uma pista sobre uma provável instalação no Brasil? Jean-Luc Martinez para por aí. Silêncio sepulcral.

De qualquer modo, o guardião da Gioconda (célebre pinturinha que Martinez não emprestou à Itália, apesar dos pedidos insistentes da cidade de Florença) carrega sentimentos contraditórios diante da relação dos museus com o dinheiro. E insiste em alertar sobre o perigo sociocultural dos tempos atuais: que os mais ricos entre os pobres se tornem clientes preferenciais dos museus dos países ricos. “A Europa não deveria se tornar a meca cultural das potências econômicas infraeuropeias; e existe esse risco, uma espécie de museificação do dinheiro”.

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