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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Cinema e Museus - em dois filmes sobre grandes instituições: a londrina “National Gallery”, de Frederick Wiseman, e “O Grande Museu”, de Johannes Holzhausen, sobre o Kunsthistorisches Museum, de Viena

Dois documentários, “National Gallery” e “O Grande Museu”; duas grandes instituições culturais da Europa; a National Gallery de Londres e o Kunsthistorisches Museum de Viena; dois realizadores com pergaminhos muito diferentes, o norte-americano Frederick Wiseman, um dos gigantes do documentarismo mundial e observador encartado das instituições públicas dos EUA ao longo de várias décadas, e o muito menos conhecido austríaco Johannes Holzhausen, formado em Cinema e também em História da Arte.


“National Gallery” foi concebido e filmado pelo mestre norte-americano Frederick Wiseman

A excelência, tal como a idade, é um posto, e por isso Wiseman e “National Gallery” saem à frente. Desde os anos 90 que o realizador de Titicut Folies e Law and Order se tem vindo também a interessar por grandes instituições culturais e do espectáculo, em documentários como “La Comédie Française ou L’Amour Joué” (1996), “A Dança-Le Ballet de L’Opera de Paris” (2009) ou “Crazy Horse” (2011), mas já há mais de 30 anos que Wiseman queria introduzir a sua câmara na National Gallery londrina, para o que precisava de autorização para lá passar mais tempo do que o solitário dia que lhe concediam. Essa autorização veio finalmente, e o cineasta passou lá 12 semanas a ver tudo o que lhe apeteceu, acumulando 170 horas de filme, que foram reduzidas na montagem a 180 minutos.

“Trailer” de “National Gallery” 


“National Gallery” é Wiseman destilado à sua mais pura essência, com a clareza de exposição, o recato estilístico e a pontaria descritiva tradicionais do realizador, que além de se comprazer em descrever o funcionamento interno do museu, mostra também a relação daqueles que lá trabalham com a instituição e o seu acervo, e as reacções dos que a visitam às obras de arte expostas. Sem comentários intrusivos ou redundantes, sem “mensagens”, sem entrevistas e com uma câmara exploradora, atentíssima ao que se passa e ao que é dito um pouco por toda a parte: reuniões da direcção, aulas de desenho com modelos, conversas entre funcionários, visitas guiadas, um crítico que grava um programa para a BBC sobre uma tela de Turner, palestras ou diálogos entre especialistas que comentam obras.

É assim que percebemos, a propósito de uma conversa sobre o quadro “Sansão e Dalila”, de Rembrandt, como a iluminação artificial altera a nossa percepção da obra, originalmente pintada para ser pendurada e vista num sítio determinado, e em função da luz natural deste, o que muda também a nossa interpretação dela; como um restauro de um quadro pode, nalguns casos, ser mais prejudicial do que benéfico; ou como a profunda religiosidade da arte da Idade Média, e aquilo que significava para os homens e as mulheres dessa época, se esbateu com o passar dos séculos, a diminuição do papel da religião no Ocidente e o quase desaparecimento do sagrado da pintura e da escultura contemporâneas, pelo que uma obra dessa época nunca nos dirá o que dizia aos seus coevos. O facto de Wiseman filmar os quadros quase sempre em grande plano, sem mostrar as paredes ou a moldura, envolve-nos ainda mais neles.

Entrevista com Frederick Wiseman
Num dos muitos belíssimos momentos do filme, que sublinham o papel didáctico da National Gallery, Wiseman regista um seminário dado a cegos sobre o pintor impressionista Camille Pissarro, com reproduções de obras deste em relevo para os participantes manipularem. O cineasta filma a orientadora do seminário a descrever um quadro, e as mãos dos participantes a sentir o que os olhos não podem ver. Tal como acontece numa visita a um museu como este de Trafalgar Square, as três horas de “National Gallery” passam sem se dar por elas, de repente já é hora de fecho. Há que repetir a visita, para ver o que nos escapou.

Um salto até Viena

Seria sempre injusto para Johannes Holzhausen comparar o seu “O Grande Museu” com o documentário de Frederick Wiseman. Mas apesar da diferença de estatutos, de dimensão da obra e de projecção internacional dos dois cineastas, os dois filmes apresentam pontos de contacto, têm vasos comunicantes, fazem rimas aqui e ali. Seguindo o exemplo de Wiseman de documentar sem emitir opiniões nem influenciar o ponto de vista do espectador, e de deixar o assunto do filme falar por si, Holzhausen passeia pelos bastidores do imponente e riquíssimo Kunsthistorisches Museum, onde se sente por todo o lado a presença do passado imperial Austro-Húngaro e da Casa de Habsburgo.

“Trailer” de “O Grande Museu” 
E o realizador esmera-se a registar, ao longo de dois anos, os trabalhos de preparação da reabertura das 20 novas galerias da Kunstkammer , “o museu dentro do museu”, procurando, em paralelo, mostrar a variedade e a opulência do acervo, e as rotinas da instituição e as pessoas que lá trabalham. Desde os directores e responsáveis pelos vários departamentos (o que nos dá direito à cerimónia da passagem à reforma do responsável pelas Armas e Armaduras, ou a seguir as viagens de trotineta de outro funcionário, da sua secretária à fotocopiadora) à vigilante que, numa reunião, se queixa de trabalhar no museu há 11 anos e nunca ter sido apresentada às pessoas dos outros departamentos; passando pelo responsável dos objectos mecânicos, que dialoga entusiasticamente com o director do Museu Britânico, de visita ao Kunsthistorisches, sobre uma miniatura de um galeão, ou ainda pelos peritos em detectar, identificar e erradicar a vária bicharada minúscula ou microscópica que se instala em pinturas, coches, vestuário, livros, etc.

Entrevista com Johannes Holzhausen
Com metade da duração de “National Gallery”, “O Grande Museu” é um documentário elegante, vivo e informativo, a espaços bem-humorado, que reflecte o orgulho, o rigor e a devoção dos directores e funcionários do museu vienense, e sem a mochila de seriedade institucional e a afectação “cultural” que torna maçudos e anónimos outros filmes deste género, e os condena ao esquecimento cinco minutos depois de serem vistos.


fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti http://observador.pt/2015/05/21/muitos-dias-dentro-de-dois-museus/




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