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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Anne Pasternak, Directora do Brooklyn Museum (Foto de Erin Baiano para o New York Times)

Pavões, avestruzes e a terceira via

Anne Pasternak, Directora do Brooklyn Museum (Foto de Erin Baiano para o New York Times)

Há umas semanas, li uma notícia sobre seis curadores do Canadian Museum of History que manifestaram preocupações éticas em relação à compra de objectos recuperados do naufrágio do Empress of Ireland. Estas preocupações incluíam a maneira como tinham sido recolhidos os objectos e o facto do museu ter pago para adquirir artefactos de um sítio arqueológico. Não só as suas objecções foram descartadas, como o museu contratou um advogado e ameaçou-os com uma acção legal, caso partilhassem as suas preocupações com outras pessoas. De acordo com o Presidente e CEO do Museu, Mark O'Neill, "É normal haver discussões internas como esta, e, francamente, torná-las públicas não é." (ler mais). Esta afirmação fez-me pensar quais seriam os temas ‘apropriados’ para serem discutidos em público e porque é que as condições de aquisição de objectos para as colecções do museu não seria um deles.

No mesmo dia que li a notícia sobre o Canadian Museum of History, li também outra, relativa ao Louvre e aos planos para o restauro da obra de Leonardo da Vinci “São João Baptista”. O museu tinha enfrentado fortes críticas no passado em relação à limpeza de “A Virgem e o Menino com Santa Ana” do mesmo pintor. Assim, desta vez, optou pela transparência total, reconhecendo que este é um assunto delicado e que deve ser discutido abertamente (ler mais).

As instituições culturais não estão muito habituadas a discutir publicamente as suas políticas, planos e decisões. Talvez porque muitas delas funcionam dentro de um círculo fechado de colegas, amigos ehabitués, entre os quais parece haver um "entendimento" e, por isso, nada precisa de ser explicado. Algumas organizações evitam responder, sequer, a perguntas que lhes são colocadas directamente, através de artigos em jornais, blogs, e-mails ou comentários nas redes sociais. É como se o incómodo fosse desaparecer se se mantiverem calados (e, temos que o admitir, na maioria das vezes é isto que acontece...). Outras organizações, seja porque percebem que não podem evitar o escrutínio público ou porque valorizam honestamente a transparência e aaccountability*, não esperam para ser questionadas, mas tomam a iniciativa de abrir o debate.

Os sinais de transparência e responsabilidade, do desejo de estabelecer uma relação aberta e honesta com a sociedade, podem ser pequenos, mas muito significativos. Pode ser algo tão simples como Miguel Lobo Antunes, Director da Culturgest em Lisboa, passar a assinar o editorial da brochura trimestral; ou Risto Nieminen, o Director do Serviço de Música da Fundação Gulbenkian apresentar o programa das temporadas não apenas à comunicação social, mas também a qualquer pessoa interessada em saber, num evento especial aberto ao público (e geralmente esgotado).

Mas a transparência e a accountabilty podem ir ainda mais longe e chegar às decisões de gestão, planeamento e programação. Atravessando o Atlântico, um bom exemplo é o de Thomas P. Campbell, Director do Metropolitan Museum, que usou todos os canais do museu (newsletter, website, redes sociais) para responder às críticas sobre o aumento do valor sugerido de entrada (ler mais). Nesse mesmo bairro do Met, o director do MoMA Glenn Lowry não se escondeu perante as críticas à exposição de Björk. Sem deixar de defender as exposições relacionadas com a cultura pop, assim como a política geral do museu, admitiu que esta exposição específica tinha sido fraca e que o museu teria que aprender a fazer melhor este tipo de exposições (ler a sua entrevista ao jornal The Art Newspaper).

Do outro lado da ponte, no Brooklyn Museum, a recentemente nomeada Directora, Anne Pasternak, fez uma consulta aberta com o público sobre o passado, presente e futuro do Museu e, de seguida, voltou publicamente ao contacto das pessoas que enviaram pensamentos e sugestões, para partilhar com todos os principais temas que tinham surgido nessa consulta e perguntando, mais uma vez, se se tinha esquecido de algo... (ler mais) . Mais a oeste, em 2012, Nina Simon partilhou uma bonita e honesta reflexão sobre o seu primeiro ano como Directora do Santa Cruz Museum of Art And History, a única do género que eu conheço (ler aqui). Precisamos de mais.

No sul europeu, temos a tendênca de pensar que este tipo de abertura tem um "toque" do norte, que não faz parte da nossa cultura, que nós não saberíamos como lidar com ela. É, certamente, mais confortável não lidar com ela.

Lembro o quão confusa e chateada fiquei quando o ex-Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, foi questionado sobre os custos da exposição "Encompassing the Globe", no Museu Nacional de Arte Antiga. A exposição tinha sido apresentada como uma enorme oportunidade e um projecto que iria atrair patrocínios sigificativos. Não foi e não conseguiu: aquando da visita, não foi claro qual era a relevância da exposição, e, assim, a oportunidade; e não conseguiu atrair os patrocínios esperados, aumentando os custos para o Estado Português, para o contribuinte. Quando o Ministro que apoiou o projecto foi questionado, recusou-se a comentar. Confortável, de facto (ler mais).

Mais recentemente, fiquei igualmente perplexa com o facto da Direcção-Geral do Património Cultural não responder às preocupações dos profissionais em relação à instalação da exposição de Joana Vasconcelos no Palácio da Ajuda, em Lisboa, e sobre os detalhes da parceria com a agência Eveything is New. Quando a parceria se mudou para o Museu Nacional de Arte Antiga, o Director-Geral apresentou-a como um "modelo de sucesso" (ler mais), embora não tenha explicado o porquê. Quando esta parceria e a que se seguiu não tiveram continuidade, ao mesmo tempo que a imprensa revelava dados sobre a queda no número de visitantes do museu (ler aqui), mais uma vez, ninguém quis discutir de que forma é definido e avaliado o "sucesso".

Ou temos fogo de artifício ou silêncio total. Ou temos pavões ou avestruzes. Aparentes 'sucessos' são uma questão pública; perguntas e objecções devem ser mantidas dentro de portas ou não devem ser discutidas. Thomas P. Campbell, Anne Pasternak, Nina Simon - três directores de museu – mostram-nos uma possível terceira via. Uma que lida tanto com as boas como com as más notícias, com honestidade e com sentido de missão e responsabilidade. Todos eles parecem estar a sair-se muito bem e os seus museus também. Será uma questão cultural? Será "muito americano"?

* Accountability significa que quem desempenha funções de importância na sociedade deve regularmente explicar o que anda a fazer, como faz, por que faz, quanto gasta e o que vai fazer a seguir. Não se trata, portanto, apenas de prestar contas em termos quantitativos, mas de auto-avaliar a obra feita, de dar a conhecer o que se conseguiu e de justificar aquilo em que se falhou.



fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti

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Cultura e conhecimento são ingredientes essenciais para a sociedade.

A cultura é o único antídoto que existe contra a ausência de amor.

Vamos compartilhar.

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