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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Após 93 anos, peças sagradas para o candomblé são identificadas e catalogadas pelo Museu Afro-Brasileiro (Mafro/Ufba). --- After 93 years, sacred parts for Candomblé are identified and cataloged by the Afro-Brazilian Museum (Mafro / Ufba).

Foram perdidas durante batidas policiais no candomblé do 'curandeiro' Antônio Osùmàrè, em 1922

Graça Teixeira, coordenadora do Mafro (Foto: Marina Silva/Correio)


Noite de 3 de outubro de 1922. O delegado da 1ª Delegacia de Salvador cerca o candomblé do “curandeiro” Antônio Osùmàrè, que funcionava no Engenho Velho da Mata Escura – hoje, Casa de Oxumarê, na Federação – e prende 15 pessoas. Os “apetrechos bellicos”, como foram chamadas as peças do culto do terreiro de candomblé, também foram levados para a 1ª Delegacia, que ficava em Ondina.

De acordo com o Babá Egbé Leandro, da Casa de Oxumarê, aquela foi apenas uma das mais de 50 batidas sofridas. “O terreiro sofreu muito, teve uma perda considerável da sua memória por conta da pressão policial”, afirma.

Uma das peças levadas foi o objeto central do culto, a Coroa de Bàyání. Noventa e três anos se passaram desde aquela batida e é possível que as peças apreendidas naquela segunda-feira no Ilé Osùmàrè Aràká Àse Ògòdó tenham se perdido ou sido destruídas. Mas algumas delas podem fazer parte de uma coleção de cerca de 200 peças que sobreviveram e estão sendo conservadas e catalogadas pelo Museu Afro-Brasileiro (Mafro/Ufba). A Coroa de Bàyání, segundo a coordenadora do Mafro, Graça Teixeira, não foi para lá.

A identificação e a origem das mesmas peças são objeto de pesquisa do museólogo Marcelo Bernardo da Cunha, que já foi coordenador do Mafro. Ele estuda o contexto histórico e de exposição das peças e busca diferenciar as ritualísticas das decorativas. Entre elas, há figas, bonecas, colares, atabaques, estatuetas, assentamentos — estes, certamente tirados em batidas policiais.

Cenas como aquela se repetiram incontáveis por décadas, capitaneadas pela Delegacia de Jogos e Costumes. Por anos, as peças foram levadas para espaços como o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) e o Museu Estácio de Lima, no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues.

Desde 2007, o Brasil celebra no dia 21 de janeiro o Dia de Combate às Intolerâncias Religiosas. Foi neste dia, no ano 2000, que a ialorixá Mãe Gilda de Ogum, do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador, morreu em decorrência das agressões ocasionadas pela intolerância religiosa. 


Mostra
Sob a guarda do Mafro desde 2010, as peças agora vão compor um catálogo e, se a vontade dos pesquisadores virar realidade, serão expostas em contexto próprio – a coleção ainda não está acessível ao público. Isso porque o Mafro, que detém as peças até 2020, tem espaço para expô-las, mas falta orçamento.



Foto: Existem mais de 15 figas na coleção
(Foto: Marina Silva/Correio)



O Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) disse ter interesse na exposição. No entanto, ainda não foi procurado pela Ufba para uma possível parceria. 

Foi a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi), que intermediou a ida das peças para o Mafro. Ainda segundo a Sepromi, o desejo é poder devolver as peças aos terreiros de origem. Em caso de impossibilidade, a melhor alternativa é expô-las. Outras peças vindas de terreiros de candomblé já estão expostas: há máscaras e estatuetas no IGHB.

De acordo com o antropólogo Renato da Silveira, algumas das peças vieram da África. Boa parte delas foi retirada dos terreiros durante batidas policiais no século passado. Conforme o museólogo Marcelo Bernardo da Cunha, que pesquisa a origem e o significado das peças, atabaques eram muito apreendidos. 

“Uma das sustentações da polícia para a perseguição era a perturbação da ordem pública. O atabaque era a prova cabal de que eles estavam fazendo barulho”, diz o museólogo. A grande dificuldade é, hoje, quase um século depois de algumas das invasões, saber de onde cada peça veio. 

Em 2010, quando as peças chegaram ao Mafro, o Tata Anselmo, do Terreiro Mokambo, a pesquisadora Ieda Machado e a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, do Ilê Axé Opó Afonjá, avaliaram as peças e concluíram que não era possível identificar a origem. Pelo menos não tanto tempo depois.


História
No final de outubro, uma das peças apreendidas pela polícia, a cadeira que pertenceu ao sacerdote Severiano Manuel de Abreu, o Jubiabá, do Terreiro Mokambo, foi devolvida aos seus ancestrais diretos. A cadeira passou 95 anos IGHB.

O nome de Jubiabá, entalhado na própria cadeira, foi fundamental para a identificação do terreiro de origem. “Na intenção de achincalhar, colocaram fotos em todos os jornais. Era impossível dizer que não era a cadeira de Jubiabá”, afirma Tata Anselmo, sacerdote do Mokambo. 


(Foto: Marina Silva/Correio)



“Se passaram 95 anos. Hoje, elas são históricas, mas naquela época aquelas peças não tinham esse valor. A não ser que se faça uma pesquisa nos jornais ou que a pessoa chegue e diga: ‘isso é da minha casa’”, diz a sacerdote.

Mas nem com o passar dos anos, as peças tiveram o devido respeito e cuidado. No Mafro há uma maraca em pedaços. “É um instrumento de afirmação, para mostrar o que o descaso faz”, diz a coordenadora Graça Teixeira.

Para o antropólogo Renato da Silveira, as peças são um documento da perseguição religiosa. “A primeira coisa que a gente tem que ressaltar é o interesse oficial em guardar essas peças como uma espécie de documento à história do Brasil, ainda que um documento triste”, diz.

Peças foram expostas em contexto de preconceito
Por anos, objetos de culto do candomblé fizeram parte do acervo do Museu Estácio de Lima, do Departamento de Polícia Técnica (DPT), dedicado à Medicina Legal, Antropologia, cultura e Etnologia.

As peças de candomblé, assim como um acervo de Cangaço, foram expostas em meio a corpos dissecados, armas, máquinas de falsificação, anomalias genéticas.

Após uma luta do povo de santo, as peças foram retiradas daquele contexto e, em 2010, levadas para o Mafro. “Foi preciso um movimento para se dar destino digno para aquilo ali. O Estácio de Lima era representante no Brasil do racismo científico do século XIX. 

A captura desses despojos era depositada naquele museu. O que se espanta é que tenham ficado tanto tempo lá. Isso revela que nossa elite ainda tem a cabeça colonialista”, diz o antropólogo Renato da Silveira.

O antropólogo e etnólogo Ordep Serra contesta o caráter de museu do espaço. “Um museu tem que ter uma ficha museográfica. Se não tem, não é museu. Eles sumiram com os documentos. Eu lembro que embaixo das peças tinha escrito o nome do terreiro de onde tinham vindo”. 

Para ele, o Estado tem uma dívida com todos os cidadãos por conta do contexto em que as peças foram expostas. Procurados pelo CORREIO, a Secretaria da Segurança Pública da Bahia e o DPT não souberam responder se as peças tinham ou não identificação por terreiro.






fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti


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--in via tradutor do google
After 93 years, sacred parts for Candomblé are identified and cataloged by the Afro-Brazilian Museum (Mafro / Ufba).

They were lost during raids in Candomblé 'healer' Antonio Osùmàrè in 1922


Graça Teixeira, Mafro coordinator (Photo: Marina Silva / Mail)


Night of October 3, 1922. The delegate of the 1st Precinct Salvador about the Candomblé "healer" Osùmàrè Antonio, who worked in the Dark Forest Old Mill - today Oxumarê house, the Federation - and holds 15 people. The "bellicos paraphernalia," as they were called cult parts of Candomblé yard, were also taken to the 1st Police Station, which was in Ondina.

According to Baba Egbé Leandro, Oxumarê the house, that was just one of more than 50 beats suffered. "The yard has suffered a lot, had a considerable loss of memory because of police pressure," he says.

One of the pieces taken was the central cult object, the Bayani Crown. Ninety-three years have passed since that hit and it is possible that the pieces seized on that Monday in Ilé Osùmàrè Araka ASE Ogodo have lost or been destroyed. But some of them may be part of a collection of about 200 pieces that have survived and are being conserved and cataloged by the Afro-Brazilian Museum (Mafro / Ufba). The Crown Bayani, according to the coordinator of Mafro, Graça Teixeira was not there.

Identification and origin of the same parts are research object museologist Marcelo Bernardo da Cunha, a former coordinator of Mafro. He studies the historical background and display parts and seeks to differentiate the ritual of the decorative. Among these are fingers crossed, dolls, necklaces, drums, figurines, settlements - these certainly taken in raids.

Scenes like this are countless repeated for decades, captained by Police Games and Customs. For years, the parts were taken to places such as the Geographic Institute and Bahia History (HBIG) and Estacio Museum of Lima, the Legal Medical Institute Nina Rodrigues.

Since 2007, Brazil celebrated on January 21 the Day to Combat Religious Intolerance. It was on this day in 2000, the ialorixá Mother Gilda Ogun, the yard Ile Axe Abassá of Ogun in Salvador, died as a result of the aggression caused by religious intolerance.


Show
A ward of the Mafro since 2010, the pieces will now compose a catalog and, if the will of the researchers come true, will be exhibited in proper context - the collection is not yet publicly available. That's because the Mafro, which holds the pieces by 2020, has space to expose them, but lack budget.




Photo: There are over 15 fingers crossed in the collection
(Photo: Marina Silva / Mail)



The Institute of Artistic and Cultural Heritage of Bahia (Ipac) is said to have interest in the exhibition. However, it has not yet been wanted by Ufba for a possible partnership.

It was the Secretariat for the Promotion of Racial Equality (Sepromi), which brokered the return of parts for Mafro. Also according to Sepromi, desire is able to return the pieces to religious communities of origin. If not possible, the best alternative is to expose them. Other pieces from Candomblé are already exposed: there are masks and statuettes in the HBIG.

According to the anthropologist Renato da Silveira, some of the pieces came from Africa. Much of it was removed from the terraces during raids in the last century. As museologist Marcelo Bernardo da Cunha, researching the origin and meaning of the parts, drums were very seized.

"One of the police Supports for persecution was the disturbance of public order. The conga was the proof that they were making noise, "says the museologist. The difficulty is, today, nearly a century after some of the raids, knowing where each piece came.

In 2010, when the parts arrived at Mafro, Tata Anselmo, Terreiro Mokambo, the Ieda Machado researcher and ialorixá Mother Stella Oxóssi, the Ile Axe Opó Afonjá evaluated the pieces and concluded that it was not possible to identify the source. At least not so long after.


History
In late October, one of the pieces seized by the police, the chair that belonged to the priest Severiano Manuel de Abreu, the Jubiabá, Terreiro Mokambo, was returned to its direct ancestors. The chair passed 95 years HBIG.

The name of Jubiabá, carved in his own chair, was instrumental in identifying the source yard. "With the intention of achincalhar, they put pictures in all the papers. It was impossible to say that was not the chair Jubiabá "said Tata Anselmo, Mokambo the priest.



(Photo: Marina Silva / Mail)



"It's been 95 years. Today, they are historical, but at the time those parts had no such value. Unless you to do a search in the newspapers or the person arrives and say, 'this is my house,' "says the priest.

But not over the years, the parts have due respect and care. In Mafro there is a maraca in pieces. "It is an affirmation tool, to show that the neglect does," says Graça Teixeira coordinator.

For the anthropologist Renato da Silveira, the pieces are a document of religious persecution. "The first thing we have to emphasize is the official interest in keeping these parts as a kind of document the history of Brazil, albeit a sad document," he says.

Pieces were shown in context of prejudice
For years, Candomblé cult objects were part of the Museum's collection Estacio de Lima of the Department of Technical Police (DPT), dedicated to the Forensic Medicine, Anthropology, Culture and Ethnology.

Parts of Candomble as well as a Cangaço acquis were exposed amid dissected bodies, weapons, counterfeit machines, genetic abnormalities.

After a struggle of the holy people, they were removed from that context and, in 2010, brought to the Mafro. "It took a move to give worthy destination for it there. The Estacio de Lima was representative in Brazil of scientific racism of the nineteenth century.

The capture of these remains was deposited in that museum. What is amazing is that they have been there so long. This reveals that our elite still has the colonial head, "says anthropologist Renato da Silveira.

The anthropologist and ethnologist Ordep Sierra disputes the museum character of the space. "A museum has to have a museographic form. If not, it is no museum. They disappeared with the documents. I remember that under the parts had written the name of the yard where they came from. "

For him, the state has a debt to all citizens by the context of the account in which the parts were exposed. Wanted by MAIL, the Secretariat of Public Security of Bahia and the DPT could not answer if the pieces had no identification or yard.

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