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domingo, 29 de maio de 2016

Cultura brasileira - livro: sobre o diário de bitita, de Maria Carolina de Jesus.

Carolina Maria de Jesus completou o centenário em 2014. Pessoas de muito bom senso não esqueceram a data e fizeram e fazem várias ações bonitas para que sua obra literária seja conhecida e divulgada. Quando pensei no programa do curso mulheres-mulheres-mulheres (que me foi solicitado voltado à escritoras brasileiras), logo matutei que não poderia deixar de mencioná-la, faço aqui uma homenagem a quem se dedica à autora e me impede de esquece-la – à Dinha Maria Nilda, às Blogueiras Negras. É um conteúdo fundamental e uma leitura preciosa.

A foto clássica de
Maria Carolina de Jesus.


Diário de Bitita veio parar na minha mesa do trabalho bem na época em que pesquisava uma boa edição para adotar de Quarto de Despejo. Telefonei para a pessoa que deixou os exemplares do livro, agradecei muito e contei do curso que estava preparando. Tenho certeza que a pessoa não faz ideia de como fiquei animada. Pois seria o texto ideal para confrontar com Minha Vida de meninade Helena Morley! O acréscimo do Diário de Bitita é não ser possível pensar a obra sem problematizar, além da questão de gênero, o racismo e a exclusão social. Os dois livros possuem alguns paralelos, fiz uma propostinha de comparação:

Primeiro que apresentam questões em sua recepção. Diário de Bitita foi primeiro publicado em francês, a partir de originais entregues pela autora e foi uma edição póstuma (Journal de Bitita, trad. Régine Valbert, A. M. Metailié, 1982 – ela faleceu em 1977). Muito do trabalho de linguagem da autora deve ter se pedido nessas idas, vindas e processos editoriais. Me preocupa muito, por exemplo, a ideia de alterarem o português de Carolina Maria de Jesus para deixá-lo dentro da caixinha da norma culta, o que me parece bastante absurdo em se tratando de literatura.



[Aliás, quem fizer pesquisa ou souber mais sobre isso e quiser me corrigir ou acrescentar algo, por favor, me conte! Sei superficialmente da história, basicamente o que encontrei no livro e em alguns artigos acadêmicos – indico estedo Daniel da Silva Moreira – UFJF, que coloca a obra em perspectiva na trajetória da autora e aborda o sexismo e este sobre denúncia e reflexão em Quarto de despejo da Elisângela Lopes].

O Minha vida de menina, diário de Helena Morley, também tem a autoria discutida (escrevi aqui a respeito) e parece que sofreu retoques do marido da autora. Não é coincidência a falta de dados concretos a respeito desses dois casos, me parece bastante claro que se fosse um homem conhecido saberíamos desses meandros melhor.

Segundo que apresentam narradoras sagazes e corajosas. Principalmente Bitita, negra, pobre, nascida numa pequena cidade de Minas. Se a coragem da “inglesinha” Helena Morley é mais por um pensar diferente, Bitita, além de pensar e refletir, também atua. Muitas vezes com ímpeto contra situações que julga injustas ou insuportáveis. Contra o racismo, contra a pobreza, contra a exploração que sua mãe e ela irão sofrer todo o tempo. Quantas vezes irá pegar sua trouxa e a estrada na busca por uma vida melhor, por uma cura para suas pernas, por um salário que seja mínimo e um teto para chamar de seu? Inúmeras vezes. O livro deixa qualquer um com tontura de tanta andança que a garota faz. Mesmo quando a situação se parece confortável, lá vai Bitita inconformada largar tudo e procurar um algo além.

Essas duas narradoras apontam com bastante eficiência o erro de se conceber meninas e garotas como frágeis ou desmioladas. Ambas possuem ideias muito originais e, no caso de Bitita, uma força descomunal para tentar se sobrepor ao destino que a sociedade parecia lhes destinar. Mesmo doente, mendigando um chão para dormir, um algo para comer, sendo humilhada por patroas e patrões, por parentxs e por conhecidxs, está lá Bitita refletindo, tirando avaliações, fazendo planos.

Terceiro, foram escritos na forma de diário autobiográfico – nada mais próximo à ideia do recôndito íntimo e feminino, embora o conteúdo dos livros esteja em constante tensão com as expectativas pueris desta forma literária [aqui quem estuda melhor o tema, também poderia me ajudar]. O interessante é que, ao que tudo indica, ambos livros foram escritos com as autoras adultas. Seria o diário a melhor forma para se reconstiur a vida e os acontecimentos passados?

Por último, cada um em seu momento histórico os livros são fontes interessantíssimas de costumes, preconceitos e modos de vida. Poderiam ser adotados em escola com tanto interesse às aulas de história quanto as de língua portuguesa. Enfim, espero que Diário de Bitita se torne leitura em muitas casas e cursos. Traz questões atuais e urgentes.

Fica aqui meu convite à leitura do Diário de Bitita.

E quem quiser corrigir alguma bobagem/erro de minha parte, fique à vontade.


* * *

Saiba mais e melhor a respeito:


Em A mídia racista e a literatura no “quarto de despejo”, Luma Oliveira conta como se encantou com a obra de Carolina Maria de Jesus e, ao se aprofundar no tema das literaturas produzidas por mulheres negras, descobre e analisa como a mesma mídia que trouxe o sucesso à autora, traz seu consequente esquecimento.

Cidinha da Silva discute, num post do fb, como é retratada erroneamente a educação de jovens negros no final do século XIX (o caso da novela Lado a Lado), usando como base de prova no Diário de Bitita.

A página Mulheres que honraram o rolê traz um post com fotos e vídeo a respeito da autora.

Na Revista Geni, Cícero Oliveira escreve sobre a vida e obra de Carolina Maria de Jesus.








Fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti

colaboração: Marcela Boni 

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