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quinta-feira, 2 de junho de 2016

corpo DE MULHER, a economia psíquica de uma sociedade violenta.

A cultura disseminada pelo capitalismo encontra como um de seus fundamentos mais importantes a noção de que a natureza está logo ali, disponível para ser explorada. Em conformidade com essa noção, ela adentra os processos de produção e de valorização do capital como elemento reduzido à sujeição absoluta. Não é, portanto, o ser humano que se submete ao ritmo natural, mas uma natureza antropizada ( Área cujas características originais (solo, vegetação, relevo e regime hídrico) foram alteradas por conseqüência de atividade humana )  que se amolda às necessidades, velocidades e escalas do processo produtivo.



Nesse contexto, a natureza é algo que pode ser fruído, apropriado e usado, na medida das necessidades e, muito particularmente, de uma vontade problemática, que não decorre do que é humano, das métricas que bastariam à vida, mas sim dos requisitos do processo de valorização capitalista.

Não se impõe aqui o uso de muitos argumentos para afirmar a tese: a necessidade de lucros crescentes está associada, de um modo geral, ao aumento físico da produção, tanto pelo incremento do volume final do que se produz, quanto pela obsolescência forçada do que já foi produzido e deve, consequentemente, ser reposto. Não interessa a esse processo extra-humano de valorização do valor se a capacidade da suporte da natureza admite as escalas que lhe são impostas.

A disponibilidade absoluta a que foi reduzida a priva de direitos e, especialmente, da faculdade de preservar o seu "corpo" - que do ponto de vista simbólico é feminino e é levado por meio de violência aberta a ser "industrioso", a trabalhar e render serviços, a ser produtivo, nos termos próprios ao regime de produção da vida material.

A indústria: imagens de diversas fontes e ruído industrial

Essa demanda violenta de disponibilidade total dirigida à natureza também alcança os seres humanos, mas a intensidade final depende do gênero. As mulheres são reservados não apenas os requisitos da contemporaneidade, mas uma atualização do que há de mais arcaico no patriarcado: a condição de prenda sexual.

São endereçadas às mulheres, portanto, não apenas as violências de velha espécie - integralmente preservadas -, mas as novas, que encontram no corpo feminino lugar de destino em que se reproduz o jogo de poder presente nas relações de produção.

Aos homens mecanizados ocorre a prática de um sexo mecânico, no qual já se pode antever elementos de um sadismo de nova espécie - que não se associa apenas a um indivíduo sádico, mas à restituição de uma violência de escala social. Do que se trata aqui?

A economia psíquica do homem violento, naquilo que se relaciona aos jogos de poder presentes nas relações capitalistas de produção, é a de uma covardia desinibida.

Covarde, porque a patologia que os acomete inicialmente é a de aderir incondicionalmente à ordem; de se sujeitarem à condição social para a qual foram predispostos por nascimento; aceitarem a autoridade e, não raro, lamber botas; literalmente e sem qualquer pudor, "puxar o saco" dos que estão acima de si na escala de poder.

Desinibida porque por meio de uma solução de compromisso, sua rendição total à norma e à ordem pode ser compensada e gratificada, tornar-se amplamente aceitável e lhe render ainda algum deleite sádico.

Aqui, como se trata de um jogo de poder, chora menos quem pode mais! Dessa forma, o covarde - que nada pode na rua. que se resigna às ordens do chefe, que se borra da polícia, que abre mão de tudo para "dar certo" - está disposto a todo esse "sacrifício", se conseguir impor a outrem o mesmo sofrimento, mas em escala maior e, se possível. sem qualquer limitação ética.

Olha então para o lado e tem pouca dificuldade em encontrar um objeto que poderá lhe restituir toda a dignidade que a vida tomou: sua mulher, uma mulher ou, até mesmo, muitas mulheres (essa escolha evidentemente não atinge apenas as mulheres, mas uma classe mais ampla que reúne, comparativamente aos violentos, quem seja mais frágil - se possível indefeso - e aqueles que dão indício de serem ou estarem felizes.

Uma vez descoberto o caminho compensatório, contudo, não há limites para a covardia e o violento pode aceitar praticamente tudo, visto ter como descarregar de imediato e fisicamente sua frustração, as humilhações a que se submete por amor à "ordem e ao progresso".

* * *

O tipo de miserabilidade que a produção capitalista institui está relacionada à concretização de uma utopia de disponibilidade absoluta, que aparece como sendo a de fruição ilimitada das coisas por meio do consumo, mas que se realiza na qualidade de requerimento de prontidão absoluta dirigida aos seres humanos - ou seja.,se está sempre "a serviço".

Esse regime de prontidão e disponibilidade repercute de modo imediato sobre a imagem do feminino e do masculino, promovendo uma dupla desfiguração.

A imagem fantasmática dessa disponibilidade, produzida por homens, contém dois polos básicos: 1) mulheres que "topam tudo, o tempo todo" e 2) varões que "jamais negam fogo". Este é o enredo invariante do produto ponográfico, em que se reproduz em caráter diretamente sexual a utopia perversa das relações sociais.

A esta cena comparece, sempre, uma natureza cujo corpo é permanentemente violado e um ser humano que não pode negar-se a ser ativo, que se inscreve em um fazer sobre o qual não pode exercer controle.

Note-se, em complemento, que a chave da pornografia não é o desvendar - imaginário próprio ao que é erótico mas o devassar. Refere-se, desse modo, a um olhar que se dirige às entranhas do que já é percebido de saída como objeto, em lugar de ir ao encontro de um ser de carne e osso.

Acena pornográfica movimenta um prazer sádico e ele não se dedica apenas de produzir dor, submeter incondicionalmente e humilhar. Sua motivação principal está vinculada ao próprio devassamento, à evidenciação das entranhas, a uma espécie de vivissecção, que compraz a visão e um voyeurismo que se relaciona à impotência - que apenas pela repetição da cena fantasmática se pode evitar:

O equivalente do operário acorrentado é esse cenodrama vaginal japonês, mais extraordinário que qualquer strip-tease: moças de coxas abertas à beira de uma estrada, os proletários japoneses em mangas de camisa (é um espetáculo popular) autorizados a meter o nariz e os olhos até dentro da vagina da moça, para ver melhor, - o quê? - trepando uns sobre os outros para alcançá-la, a moça conversando gentilmente com eles o tempo todo ou ralhando por formalidade. 

Todo o resto do espetáculo, flagelações, masturbações recíprocas, strip tradicional apaga-se diante desse momento de obscenidade absoluta. de voracidade do olhar que ultrapassa de longe a posse sexual. Pornô sublime: se pudessem os tipos meter-se-iam inteiros dentro da jovem - exaltações de morte? Talvez, mas ao mesmo tempo eles comentam e comparam as respectivas vaginas sem nunca rir ou gargalhar, numa seriedade mortal e sem nunca tentar tocá-las, a não ser por brincadeira. Nada de lúbrico: um ato extremamente grave e infantil, uma fascinação integral pelo espelho do órgão feminino, como de Narciso por sua própria imagem. 

Muito além do idealismo convencional do strip-tease (talvez lá dentro houvesse até sedução), no limite sublime o pornô converte-se numa obscenidade purificada, aprofundada no domínio visceral - por que deter-se no nu, no genital? Se o obsceno é da ordem da representação e não do sexo, deve explorar o próprio interior do corpo e das vísceras: quem sabe que gozo profundo de esquartejamento visual, de mucosas e de músculos lisos daí pode resultar? Nosso pornô ainda tem uma definição muito restrita. A obscenidade tem um futuro ilimitado. (BAUDRILLARD. 1991, PAO)

O que movimenta esse impulso à vivissecção, esse anseio pelas entranhas, presentes de forma persistente na cena pornográfica? É possível tecer um hipótese sociológica para essa situação. O regime produção leva a uma progressiva mecanização, não apenas do processo de trabalho, mas também de seu elemento subjetivo. A conversão do produtor em objeto, em componente de uma imensa maquinaria, reforça componentes sádicos, que reclamam que a tudo que está vivo ocorra a mesma ordem de objetificação. A rigor, por meio desse componente sádico é a própria pulsão de morte que espreita, dando curso ao desejo de arrastar tudo, de vez por todas, para o inanimado:

El sadismoy el fet(i)chismo se entrelazan en las fantasias que quieren hacerde toda vida orgânica patrímonio de lo inorgânico. "En adelanteya no serás !oh. materia viviente!. sino bloque de granito en medio de un terror impreciso, adormecido en el fondo de un Sahara brumoso.(Spleen II). La recaída dei viviente en la materia muerta ocupó intensamente , por la misma época, a Flaubert. Las visiones de San Antonio son un triunfo del fct(i)chismo comparable ai que celebro el Bosco

en el altar de Lisboa. [Walter Benjamin, Pasajes, p. 361]

* * *

The uncovering of mechanical aspects of the organism is a persistent tendency of the sadist. One can say that the sadist is bent on replacing the human organism with the image of machinery. Sade is the offspring of an age that was enraptured by automatons. And La Mettrie's "man machine" alluded to the guilhotine, which furnished rudimentary proof of its truth. In his bloody-minded fantasies, Joseph de Maistre - Baudelaire's authority on matters political - is cousin to marquis de Sade. (BENJAMIN, 1999, p. 368)


É evidente que a pulsão de morte investida nos corpos - que deve ser pensada na qualidade de restituição inconsciente e perversa da mecanização a que estamos todos submetidos - diz respeito à espécie, mas uma vez mais se diferencia segundo o gênero.

Sobre o corpo feminino pesa um objetificação de segunda ordem (e primeiro poder), que se destina a compensar a violência que os homens estão dispostos a sofrer, para preservar sua condição, o papel que exercem socialmente o que, até aqui, os têm colocado na liderança da sociedade, em todos os fóruns e agências que de fato importam.

Por isso a violência dirigida às mulheres - por terem corpo de mulher - não diminui com o progresso ou com o aumento da riqueza material: ela é produto imediato do mesmo sistema que gera tanto um, quanto a outra. Na verdade, e contrariamente ao senso comum, esse "progresso" amplia a quantidade de indivíduos predispostos a perpetrar violência e encontrar nela um deleite sádico, exatamente porque não pode deixar de ampliar os fundamentos desse mesmo sadismo:

O que outrora era exemplificado apenas por alguns monstros nazistas pode ser constatado hoje a partir de casos numerosos, como delinquentes juvenis, lideres de quadrilhas e tipos semelhantes, diariamente presentes no noticiário. Se fosse obrigado a resumir em uma fórmula esse tipo de caráter manipulador o que talvez seja equivocado embora útil à compreensão eu o denominaria de o tipo da consciência coisificada. No começo as pessoas desse tipo se tornam por assim dizer iguais a coisas. 

Em seguida, na medida em que o conseguem, tornam os outros iguais a coisas. Isto é muito bem traduzido pela expressão aprontar, que goza de igual popularidade entre os valentões juvenis e entre os nazistas. Esta expressão aprontar define as pessoas como sendo coisas aprontadas em seu duplo sentido. Conforme Max Horkheimer, a tortura é a adaptação controlada e devidamente acelerada das pessoas aos coletivos. 

Algo disso encontra-se no espirito da época, por menos procedente que seja falar em espírito nesses termos. Enfim, resumirei citando Paul Valéry, que antes da última Guerra Mundial disse que a desumanidade teria um grande futuro. É particularmente difícil confrontar esta questão porque aquelas pessoas manipuladoras, no fundo incapazes de fazer experiências, por isto mesmo revelam traços de incomunicabilidade. no que se identificam com certos doentes mentais ou personalidades psicóticas. (Educação após Auschwitz. Theodore Adorno).

* * *

O percurso realizado até aqui demonstra que há uma relação imediata entre a luta política de interesse universal e a reapropriação do corpo feminino por parte das mulheres. Esse corpo, que remete simbolicamente à natureza originária e criadora, é submetido pela irracionalidade do sistema de produção da vida material, a diferentes ordens de violência.

Sofre inicialmente o peso de uma sociedade que preserva, como seus, traços patriarcais pré-modernos e vê recair sobre si, em complemento, a fúria destrutiva por uma vida amplamente mecanizada e que dá livre curso à desadjetivação. A patologia social encontra no corpo feminino um lugar de chegada, a partir do qual a doença psíquica geral passa a oferecer gratificações por sua plena instauração no âmbito social.

A propaganda e o imaginário produzido para a venda têm um papel fundamental aqui, pois prometem e insinuam que aquilo que nos é tomado em potência e alegria de viver, será restituído por um gozo do qual as mulheres participam, queiram ou não. Estas, tanto quanto a natureza, estão constrangidas à disponibilidade absoluta, para sustentar o rodar da roda, que a reprodução da vida material de fato é.

Não é um acaso, portanto, que a redenção desse corpo para si mesmo, como afirmação e direito a sua alteridade, seja um dos temas políticos mais relevantes da história contemporânea. Libertar o corpo feminino das distintas ordens de ditaduras a que se encontra submetido diz respeitos de forma imediata às mulheres, mas do ponto de vista político essa emancipação propõe uma vida de saída para um mundo infernal que os homens criaram.


colaboração:   Grafia Mayra Geo

fonte: 







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