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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Lisboa, Portugal, já tem um Museu do Dinheiro. Entre na máquina do tempo.

Museu do BdP abre esta quarta-feira e conta a história da banca e das moedas do mundo. É vasto e interactivo, e até se pode pegar numa barra de ouro avaliada em meio milhão de euros. Se conseguir...


As moedas contam histórias. As notas idem. E o Museu do Dinheiro, que abre ao público esta quarta-feira, cozinha-as todas, numa viagem por vários capítulos da História de Portugal. É como entrar na máquina do tempo, numa lengalenga que junta rainhas, reis, trocas comerciais, a história da banca, ditadura, poder, falcatruas e pessoas. De tempos idos e não só. Estes Descobrimentos da era moderna levam-nos às primeiras moedas e notas usadas no Ocidente e Oriente, passando por muitas outras usadas no nosso país e nos outros, mas também às diferentes formas de dinheiro. Ou ainda à história de Alves dos Reis, o maior burlão português de todos os tempos (aqui há fair-play do Banco de Portugal…).


Os ponteiros do relógio avisam que estão aí as dez da manhã. O Observador entra na Sede do Banco de Portugal (BdP), junto à CM de Lisboa, um conjunto de oito edifícios a que se junta também a antiga Igreja de São Julião, que o banco foi comprando entre 1868 e 1933. Ohall, a igreja, que outrora já fora um parque de estacionamento (!?), é imponente. É digno de uns segundos a contemplar. O pé-direito, os pormenores nos varandins e os tons leves cravados nas paredes funcionam como um qualquer agente pacificador.

O primeiro desafio quase que permite um quebra-cabeças. Imaginemos que alguém dizia assim: “Se encontrarem uma barra de ouro algures no museu, podem levá-la”. Okay, era giro. A entrada dessa primeira estação é sedutora: uma porta da casa-forte, comprada em 1932 à empresa norte-americana York Safe and Lock Co. Tem mais de sete toneladas de aço e outrora escondia as reservas de ouro do banco.

Et voilà, ali estava uma barra de ouro, a cintilar, com um amarelo irresistível, pronta para ser levada. Aos pensamentos “o que faria com quase meio milhão de euros” e “onde é que a escondia ou como vendia?” junta-se um outro bem mais real e triste: “Uma ida ao ginásio seria boa ideia para levar este plano avante”. É que a tal barra irresistível, que brilha como o sol, que aquece a alma, nem que seja por tantos filmes e desenhos animados com assaltos impossíveis ao barulho, pesa quase 13 quilos.

Em “Convencionar” (zona 3) observamos a primeira moeda do mundo ocidental, que remonta ao sétimo século a.C. e que terá surgido em Lídia, atualmente Turquia. “A marca mais comum entre as primeiras moedas era a cabeça de leão a rugir, imagem associada à dinastia lídia dos Mérmnadas”, pode ler-se no caderno com informações sobre o espaço. Como dizia Eugénio Gaspar, que tutela o novo projeto do Banco de Portugal, no arranque da visita, “isto é para ser descoberto, não é para ser contemplado” — a visita tem 12 zonas interativas. E é isso mesmo, uma aula que para ser levada a sério seriam precisas três, quatro horas. Numa versão light, talvez duas horas cheguem para conhecer razoavelmente este museu.

O Museu do Dinheiro oferece também a oportunidade de meter os olhos na primeira nota usada no Oriente: um guan, que diz respeito à Dinastia Ming (1375-1425). O material era casca de amoreira. “Quando em 1375 o imperador Hongwu iniciou a emissão destas notas, já a China tinha mais de três séculos de experiências em emissões fiduciárias”, lê-se no tal caderno. Pergunta para queijinho: sabe quem estava cravado na primeira moeda com busto em Portugal? A rainha D. Beatriz, no século XIV, que era também infanta do reino de Castela.

O espólio deste museu do BdP, comprado em leilões e a colecionadores, está avaliado em dez, 12 milhões de euros, embora Eugénio Gaspar ressalve que há muitos itens que têm um outro valor histórico e sentimental — “incalculável”. E é de uma ginástica impressionante, no que às datas diz respeito, assim como à riqueza geográfica. Lá mais para a frente, no espaço “Ilustrar” (7) podem ver-se muitas, muitas notas de todo o mundo. Até as usadas em Angola e Índia, por exemplo, durante a ocupação portuguesa. Das Américas a África, passando pela Ásia, há todo um mar de notas que fazem história. Conhece os kyats? O BdP tem uma nota de 100 kyats, de Myanmar (ex-Birmânia), que emitiu moeda poucos anos depois de garantir a independência do Reino Unido (1948).

Portugal está, naturalmente, em foco nesta exposição e é curioso observar a evolução da moeda, dos símbolos, dos materiais, do estilo. Não deixa de ser interessante também ver o que se fez e usou na Primeira República, aquela conturbada com 45 governos entre 1910 e 1926, até ao Estado Novo. A memória depois já permite ver algumas muito dignas e com ar de importantes notas de 1.000 escudos, emitidas nos anos 80. A caminhada acaba no Euro, pois claro, que nos traz pouca nostalgia.

O museu é igualmente rico a nível tecnológico e interativo. Para quem quiser sentir-se um George Washington ou D. Beatriz, existe a possibilidade de cunhar uma moeda com o rosto do visitante ou colar a face numa nota. Depois, graças ao bilhete 2.0, é possível gravar-se para depois imprimir ou ter acesso em casa, para partilhar nas redes sociais ou guardar como souvenir. Navegar por vários séculos numa timeline é outro desafio, para conhecer as moedas em circulação na altura e a proveniência. Há ainda a zona “Testemunhar”, onde se ouve a relação das pessoas com o dinheiro, nomeadamente algumas histórias mais tocantes, nas quais o objeto deste museu não abunda — cada visitante poderá deixar o seu contributo.

E, em jeito de conclusão, porque o que tresanda a lenda é o que seduz, que tal voltar a revisitar a história de Alves dos Reis? No museu fala-se também em contrafação, há uma zona até para comprovar a genuidade e até comparar moedas genuínas e outras contrafeitas. Por isso, uma das estrelas desta exposição é também um burlão português, que com 18 anos já havia forjado um diploma do curso de engenharia passado pela Polytechnic School of Engineering, lembrava a Visão em 2013.

“Em 1925, um grupo de que se destacou Artur Alves do Reis conseguiu obter da casa Waterlow & Sons (Londres) duplicados das notas de 500 escudos, chapa 2, no valor de cerca de 100.000 contos”, pode ler-se na legenda associada à sua burla. “Com esses duplicados criou vários negócios, entre os quais o Banco Angola e Metrópole. Durante algum tempo as notas emitidas pelo Banco de Portugal circularam em simultâneo com as da emissão fraudulenta. Só o aparecimento de duplicados levou à descoberta da fraude.”

As notas da marosca ficariam conhecidas por camarões. Porquê? Não, não era porque havia dinheiro para ir a mariscadas de alto gabarito. “Estas notas receberam por vezes o nome de ‘camarões’ por terem sido banhadas numa solução de ácido cítrico com o propósito de as livrar do cheiro de tinta fresca. Daí resultou uma nova coloração com aspeto semelhante daquele marisco”. É verdade, lado a lado, podia constatar-se que a nota fraudulenta era mais alaranjada.









Fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti

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