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domingo, 13 de novembro de 2016

Capinan comenta sobre o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab). na Bahia, Brasil. --- Capinan comments on the National Museum of Afro-Brazilian Culture (Muncab). In Bahia, Brazil.

'Temos um acervo importante que está ameaçado', 



O poeta e compositor baiano provoca um "zumbido" para chamar a atenção das dificuldades enfrentadas pelo Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira, que luta para sobreviver

Quatorze anos se passaram desde a idealização do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) e, por incrível que pareça, o espaço carinhosamente apelidado de “museu em processo” está longe de concluir suas obras. “Perda cultural imensa”, na opinião do diretor do Muncab, José Carlos Capinan, 75 anos, que decidiu fazer um “zumbido” para chamar a atenção das dificuldades enfrentadas no espaço.

Persistente, o poeta e compositor tropicalista comenta sobre problemas que vão de alagamentos e risco às obras, até o processo de federalização ainda pendente. Também presidente da Associação de Amigos da Cultura Afro-Brasileira (Amafro), Capinan revela projetos artísticos e arquitetônicos para o museu, conversa sobre o projeto Zumbido no Muncab, que terá show de Paulinho da Viola, e critica o retrocesso da sociedade atual. Confira.

Idealizado em 2002, o Muncab passa por um processo de federalização que ainda não foi concluído. Em que pé está isso?

A proposta de criação do museu surge em 2002, feita pelo Ministério da Cultura, e a ideia era criar cinco museus federais em diferentes estados. Entre eles, havia um dedicado à cultura afro-brasileira e definiu- se que o melhor lugar para a implantação desse museu seria a Bahia, por sua própria história, pela força da cultura afro-brasileira aqui. A ideia era que o museu tivesse uma gestão mista - com participação do estado, do Ministério da Cultura e de uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) -, em função de superar um problema que era vivido na época e que continua hoje. Não só um problema de gestão, mas de recursos que permitissem investir em atividades educativas e culturais, que é mais ou menos o modelo que estamos tentando implantar aqui. Ou seja, o projeto estava planejado para ser executado em dois anos, a partir de 2002, sendo que sua parte fundamental seria a federalização, na qual, através de um decreto-lei, esse museu viraria federal.

Quais são os obstáculos que estão impedindo esse processo?

Ocorreram algumas interrupções administrativas e isso já atrasou em dois anos o trabalho. Em 2004, tivemos o primeiro patrocínio da Caixa Econômica, para fazer cadastro dos dois prédios, projeto arquitetônico, museológico e projetos complementares. Nós captamos através da Lei Rouanet, mas não foi suficiente para desenvolver as obras de restauro. Então, em 2010, continuávamos com dificuldades. Aí veio a criação de um convênio com o Fundo Nacional de Cultura, no valor aproximado de R$ 10 milhões. Entretanto, os repasses parcelados foram suspensos em 2011, devido a irregularidades nas obras encontradas pela CGU (Controladoria-Geral da União). Em função disso, nós abrimos uma ação contra a empreiteira e essa ação ainda está sendo julgada. Obra é uma coisa muito complicada, sobretudo obra de ruínas. Por exemplo, estamos vivendo um problema com as chuvas que continuam alagando o museu. Queremos a liberação do que está retido para darmos continuidade a essas obras e fazer a readequação no telhado. Temos um acervo muito importante que está ameaçado. Precisamos dar continuidade, porque temos 80% de obra realizada desse lado do prédio e a gente quer retomar as obras do outro prédio, onde serão feitos uma biblioteca e um café.

O que esse impasse provoca?

Uma perda cultural imensa, uma perda histórica, porque não legitima a diversidade cultural que é uma das maiores riquezas que nós temos. É uma discriminação, porque não permite que o Brasil conheça sua própria origem, suas matrizes. Na luta contra o racismo, contra o preconceito e na luta pelo conhecimento a gente também perde, porque não tem uma entidade capaz de dinamizar esse conhecimento para vencer a ignorância a respeito dessa matriz importante. Por isso, em determinado momento, adotamos o apelido ‘Museu em Processo’ e continuamos a fazer ações educativas e exposições, como a do Mestre Didi e O Benin Está Vivo Ainda Lá - Ancestralidade e Contemporaneidade (2009), com curadoria de Emanoel Araujo, que é responsável pela escolha desse prédio magnífico - antigo Tesouro do estado. Depois de adotar o ‘Museu em Processo’, nós adotamos hoje outro lema: Museu Vivo.

Diante do que se pensa para o Muncab, há alguma tentativa de dinamizar o entorno?

Existem muitas ideias, mas estão na dependência da nossa verba. Por exemplo, há uma proposta do arquiteto Paulo Ormindo para a criação de um estacionamento subterrâneo, que é muito importante, e há a proposta de sinalização indicando onde fica o museu. Além disso, nosso calendário prevê duas exposições temporárias anuais, em datas alusivas como é o 13 de maio e o mês de novembro, mês da consciência negra. Só estamos conseguindo fazer em novembro. Mas acho que a criação do museu como entidade jurídica vai nos dar colaboradores, técnicos, pesquisadores, professores e museólogos para fazer a instituição funcionar. Hoje, nós estamos trabalhando com cinco pessoas, contando os vigilantes, oito.

O que está ainda previsto na programação do Muncab?

Nosso roteiro expográfico foi criado para tentar cobrir a maioria dos temas da cultura afro-brasileira. Isso é o que o roteiro - que ainda não foi totalmente instalado - pretende: falar da identidade negra, falar da África como continente de onde toda a humanidade veio inicialmente; falar da questão do tráfico de escravos; da resistência negra, dos quilombos e revoltas; das contribuições na culinária; da religiosidade; das festas populares; do esporte; e da música, que é uma exuberância de matrizes com o samba, semba, maracatu... Nós vamos ter uma árvore do conhecimento e vamos convidar artistas a cada dois anos para fazer uma instalação nessa sala. Temos a ideia do jardim do axé, com plantas medicinais sagradas, e vamos falar da arte também, porque somos um museu histórico e artístico.

A partir do dia 18, o museu realiza o projeto Zumbido no Muncab. Qual é o objetivo do evento, que conta com exposições, oficina e show de Paulinho da Viola?

Primeiro é dar mais visibilidade ao museu e seus problemas. Dar mais visibilidade a sua importância e conquistar mais adeptos a sua instalação, pra gente vencer essa burocracia, essa falta de consideração. Somos prioridade e vencer a resistência é o objetivo principal. Retomar o projeto, pressionar para que seja federalizado o museu. Isso é importante para que ele sobreviva de fato.

Por quê?Hoje, o grande problema nas manifestações é a falta de conteúdo e o individualismo sem identidade, sem responsabilidade. Devemos ser aqui, nessa casa de cultura, estimuladores da liberdade de criação, da liberdade de expressão. Sem isso, o humanismo se esvazia. A principal bandeira aqui é o humanismo. Ensinar a fazer, ensinar a ser, porque acho que somos o que fazemos e quanto melhor fazemos, melhor somos. Essa é a proposta do museu, poder ajudar a formar uma consciência, que permita uma contribuição com a contemporaneidade.

Concorda que essa contemporaneidade vive um retrocesso?

Sem dúvida. Tenho uma interpretação para essa crise brasileira atual: é uma crise capitalista sobretudo, que não consegue garantir para a humanidade um sistema que seja bom para todos. Até a metade do século passado, a questão da negritude, da mulher, a questão de gênero e de outras coisas estavam travadas. A partir dos anos 60, houve uma contracultura e aí, de repente, várias coisas que foram conquistadas estão ameaçadas novamente. Tudo isso depois de um século onde emerge o Woodstock, a Bossa Nova, o Cinema Novo, a Semana de Arte Moderna, o movimento contra a guerra... Você vê o candidato que vence as eleições nos Estados Unidos falando de uma forma preconceituosa contra a mulher, o homossexual, os mulçumanos e contra uma série de coisas que fazem a gente pôr em dúvida se isso tudo será permanente, ou será destruído. Essa onda de conservadorismo é muito forte e a inteligência tem que voltar a ser a grande arma. A inteligência, a sensibilidade, a arte, a cultura... E o museu é justamente uma casa a favor da produção de conhecimento. Tínhamos vários programas para trabalhar com a comunidade, mas como é que a gente vai fazer isso sem recurso? Sem a estrutura museológica aprovada? Então tem que dar um choque, fazer um “sacudimento” como foi o Tropicalismo.

Aproveitando que você tocou no assunto, como está a expectativa para celebrar os 50 anos da Tropicália, ano que vem?

Eu não tinha ideia de que a Tropicália viraria um movimento que está aí para ser permanentemente ensinado... Mas é uma forma de preservar memórias e atitudes. Na época do Tropicalismo, havia uma rebeldia universal e os jovens lançavam desafios com relação ao que estava instituído, não confiavam em pessoas com mais de 30 anos e até nos partidos políticos, que foram rejeitados como se fossem capazes de mudar o mundo. Então, a ideia era que a música, a arte e a poesia transformassem o mundo. É isso que dá força ao Tropicalismo naquele momento, porque é basicamente um movimento cultural, comportamental. Surgem aí os grandes momentos do black power, que contestam os preconceitos estéticos, os padrões. Tudo isso é colocado em jogo no mundo inteiro. Os festivais foram muito importantes também para essa expressão, o festival de 67 sobretudo, com Domingo no Parque; Alegria, Alegria; e aí também surge Soy Loco Por Ti América. As guitarras entram como a estética musical e poética desse momento. Nessa época, a Guerra Fria, a corrida armamentista, a corrida pelo espaço, tudo isso desafiou os tropicalistas e acho que responderam de uma forma bem sensível. Por isso, talvez, sejam sempre uma fonte pra gente rever esse caminho e, em uma hora como essa em que há uma onda conservadora, para tomarmos novas iniciativas e mexer com os caretas.


fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti
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--in via tradutor do google
"We have an important collection that is threatened,"

The Bahian poet and composer causes a "buzz" to draw attention to the difficulties faced by the National Museum of Afro-Brazilian Culture, which struggles to survive

Fourteen years have passed since the creation of the National Museum of Afro-Brazilian Culture (Muncab) and, amazingly, the space affectionately dubbed a "museum in process" is far from complete. "Immense cultural loss", according to the director of Muncab, José Carlos Capinan, 75, who decided to make a "buzz" to draw attention to the difficulties faced in space.

Persistent, the tropicalist poet and composer comments on problems ranging from flooding and risk to works, to the process of federalization still pending. Also president of the Association of Friends of Afro-Brazilian Culture (Amafro), Capinan reveals artistic and architectural projects for the museum, talks about the project Buzz in the Muncab, which will show Paulinho da Viola, and criticizes the retrogression of the current society. Check it.

Idealized in 2002, the Muncab is going through a process of federalization that has not yet been completed. What foot is that?

The proposal to create the museum arose in 2002, made by the Ministry of Culture, and the idea was to create five federal museums in different states. Among them, there was one dedicated to Afro-Brazilian culture and it was defined that the best place for the implantation of this museum would be Bahia, by its own history, by the strength of Afro-Brazilian culture here. The idea was that the museum had a mixed management - with the participation of the state, the Ministry of Culture and an Oscip (Civil Society Organization of Public Interest) - in order to overcome a problem that was experienced at the time and which continues today . Not only a management problem, but resources that allow us to invest in educational and cultural activities, which is more or less the model we are trying to implement here. That is, the project was planned to be executed in two years, from 2002, and its fundamental part would be federalization, in which, through a decree-law, this museum would turn federal.

What are the obstacles hindering this process?

There have been some administrative disruptions and this has already delayed the work by two years. In 2004, we had the first sponsorship of Caixa Econômica, to register the two buildings, architectural project, museology and complementary projects. We captured through the Rouanet Law, but it was not enough to develop the restoration works. So in 2010, we were still struggling. Then came the creation of an agreement with the National Fund of Culture, in the approximate amount of R $ 10 million. However, installments were suspended in 2011 due to irregularities in the works found by CGU (Federal Comptroller's Office). As a result, we have filed a lawsuit against the contractor and this action is still pending. Work is a very complicated thing, especially a work of ruins. For example, we are experiencing a problem with the rains that continue to flood the museum. We want the release of what is retained to give continuity to these works and to make the adjustment on the roof. We have a very important collection that is threatened. We need to give continuity, because we have 80% of work done on this side of the building and we want to resume the works of the other building, where a library and a cafe will be made.

What causes this impasse?

An immense cultural loss, a historic loss because it does not legitimize the cultural diversity that is one of the greatest riches we have. It is a discrimination, because it does not allow Brazil to know its own origin, its matrices. In the fight against racism, against prejudice and in the struggle for knowledge, people also lose, because they do not have an entity capable of dynamizing this knowledge to overcome ignorance about this important matrix. That is why, at a certain moment, we adopted the nickname 'Museum in Process' and we continue to do educational actions and exhibitions, such as that of Mestre Didi and Benin Is Still Still There - Ancestrality and Contemporaneity (2009), curated by Emanoel Araujo, Who is responsible for choosing this magnificent building - former state treasury. After adopting the 'Museum in Process', we adopted today another motto: Living Museum.

Given what is thought for the Muncab, is there any attempt to energize the environment?

There are many ideas, but they depend on our money. For example, there is a proposal by the architect Paulo Ormindo for the creation of an underground parking lot, which is very important, and there is the signaling proposal indicating where the museum is located. In addition, our calendar provides for two annual temporary exhibitions, allusive dates such as May 13 and November, month of black conscience. We can only do this in November. But I think that the creation of the museum as a legal entity will give us collaborators, technicians, researchers, teachers and museologists to make the institution work. Today, we are working with five people, counting the guards, eight.

What is still foreseen in the Muncab programming?

Our expository script was created to try to cover most of the themes of Afro-Brazilian culture. This is what the script - which has not yet been fully installed - aims to: speak of the black identity, speak of Africa as continent from where all humanity came initially; Talk of the slave trade; Black resistance, quilombos and revolts; Of contributions in cooking; Of religiosity; Of popular festivals; Of sports; And music, which is an exuberance of matrices with samba, semba, maracatu ... We will have a tree of knowledge and we will invite artists every two years to make an installation in this room. We have the idea of ​​the axé garden, with sacred medicinal plants, and let's talk about art too, because we are a historical and artistic museum.

From the 18th, the museum realizes the project Buzz in the Muncab. What is the purpose of the event, which has exhibitions, workshop and show of Paulinho da Viola?

First is to give more visibility to the museum and its problems. Give more visibility to its importance and win more fans to its installation, to overcome this bureaucracy, this lack of consideration. We are priority and overcoming resistance is the main goal. Resume the project, press for the museum to be federalized. This is important for him to actually survive.

Today, the big problem in the manifestations is the lack of content and the individualism without identity, without responsibility. We must be here, in this house of culture, stimulators of freedom of creation, of freedom of expression. Without this, humanism empties itself. The main banner here is humanism. Teaching to do, teaching to be, because we think we are what we do and the better we do, the better we are. This is the proposal of the museum, to be able to help to form a conscience, that allows a contribution with contemporaneity.

Do you agree that this contemporaneity is going backwards?

No doubt. I have an interpretation for this current Brazilian crisis: it is a capitalist crisis above all, that can not guarantee for humankind a system that is good for all. Until the middle of the last century, the issue of blackness, of women, of gender, and of other things was stuck. Since the 1960s, there has been a counterculture, and then, suddenly, several things that have been won are threatened again. All this after a century of Woodstock, Bossa Nova, New Cinema, Modern Art Week, the anti-war movement ... You see the candidate who wins the elections in the United States speaking in a prejudiced way against The woman, the homosexual, the Muslims and against a number of things that make us question whether this will be permanent, or it will be destroyed. This wave of conservatism is very strong and intelligence must be the great weapon again. The intelligence, the sensibility, the art, the culture ... And the museum is just a house in favor of the production of knowledge. We had several programs to work with the community, but how are we going to do it without recourse? Without the museological structure approved? So you have to give a shock, make a "shake" as was Tropicalismo.

Taking advantage of what you've touched on, how do you expect to celebrate Tropicalia's 50th anniversary, next year?


I had no idea that Tropicália would become a movement that is there to be permanently taught ... But it is a way of preserving memories and attitudes. At the time of Tropicalism there was a universal rebellion, and young people were challenged with what was set up, they did not trust people over 30 and even political parties who were rejected as if they were capable of changing the world. So the idea was that music, art, and poetry would transform the world. This is what gives strength to Tropicalism at that moment, because it is basically a cultural, behavioral movement. There arise the great moments of black power, which challenge the aesthetic prejudices, the patterns. All of this is put into play all over the world. The festivals were also very important for this expression, especially the festival, with Domingo in the Park; Joy Joy; And there also appears I'm Crazy For You America. Guitars come in as the musical and poetic aesthetic of that moment. At that time, the Cold War, the arms race, the race for space, all this challenged the tropicalists and I think they responded in a very sensitive way. So, maybe, they are always a source for us to review this path, and in an hour like this where there is a conservative wave, to take new initiatives and to play with the faces.


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