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sábado, 24 de outubro de 2015

Museu Vale recebe panorama da obra de Vik Muniz, Vila Velha, Espírito Santo, Brasil.

A mostra VIK MUNIZ chega ao Museu Vale em 15 de outubro e fica até 14 de fevereiro de 2016, na esteira de uma turnê de sucesso pela América Latina (atualmente está sendo exibida no Museu da Universidade Três de Fevereiro (MUNTREF), de Buenos Aires). No Museu Vale, entretanto, chegará acrescida de obras recentes do artista, além das 33 fotografias que compõem Earthworks.



Em Earthworks – obra ícone da exposição – as minas da Vale em Carajás e Minas Gerais foram palco da construção, em 2002. – Um trabalho tão complexo como foi Earthworks, que demandou precisão, empenho de muita gente e uma estrutura incrível de logística. E agora, mais de dez anos depois, é justamente o Museu Vale quem me convida para expor no Espírito Santo– constata Vik Muniz. – Acho interessante essa rede de recorrências, de interações que multiplicam a arte.

Na vastidão das áreas mineradas a céu aberto, Vik Muniz, em parceria com a Vale do Rio Doce, realizou a série de fotografias. De helicóptero, o artista comandou a operação e fotografou os desenhos feitos com tratores e escavadeiras em grandes áreas de mineração da companhia. Com o GPS, o traçado era sinalizado no terreno, indicando onde as retroescavadeiras deveriam escavar.

As fotografias parecem uma documentação de marcas deixadas por extraterrestres em regiões não urbanas mas com certa ironia em relação aos objetos de uso cotidiano: cabide, lâmpada, tesoura, colher, dado e clipe de metal, entre outros. O trabalho remete às intervenções monumentais em paisagens naturais(Land Art) de artistas como Robert Smithson (1938–1973). Na série, Vik brinca com a percepção do espectador, intercalando fotos de maquetes com outras realizadas no terreno da Vale, ou seja, misturando obras de grande e pequena escalas.

Na mostra VIK MUNIZ, vários trabalhos referenciais do artista marcam presença como: Sugar children (Crianças de açúcar), série de rostos de meninos filhos de operários das usinas açucareiras caribenhas, desenhados com açúcar; imagens de diamantes, que recriam rostos de celebridades, redesenhados com milhares de diamantes; Postcards from nowhere(Cartões-postais de lugar nenhum), que exibe cartões postais, no mínimo, inusitados de várias cidades do mundo. Merece destaque também a série de recriações de obras originais de grandes pintores, como Caravaggio, sempre com o suporte de materiais improváveis.

É um sonho antigo ter Vik Muniz aqui – comemora Ronaldo Barbosa, diretor do Museu Vale e responsável pelo convite ao artista. – É um artista extremamente atual, com uma obra renovadora e dinâmica, afinada com as tendências mais éticas dentro da arte contemporânea hoje – sintetiza.



Na mira da arte

– Não tem problema usar chocolate, é bom. O ruim é a tinta, porque nunca se sabe direito o que contém – brinca o artista, que abriu os caminhos para uma carreira internacional na arte depois de mudar-se de São Paulo para Nova York. Explica-se: após apartar uma briga de rua, foi alvejado na perna pelo próprio agredido – que, para evitar uma denúncia, ofereceu-lhe uma gorda recompensa em dinheiro.

– Aceitei e resolvi usar o dinheiro para comprar uma passagem de avião e me mandar para Nova York – conta o artista.

Uma vez lá, deixou-se envolver de vez com a efervescência cultural da metrópole e descobriu que podia usar de tudo um pouco para materializar seu talento. Foram 30 anos nos EUA, mas sempre aqui e ali também, trabalhando em vários países. Hoje Vik mora no Rio e se envolve bastante com projetos sociais, como a ONG Spectaculu. Em 2013, inicia com recursos próprios a construção da Escola do Vidigal, que oferece a crianças em fase de alfabetização a oportunidade de aprender arte e tecnologia brincando, por meio de uma metodologia de ensino que é resultado de uma parceria entre Vik Muniz e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. – É uma ‘Bauhaus’ para criancinhas, brinca com um sorriso muito sério.

Transformar com atitude

Vik Muniz, 53 anos, artista múltiplo que figura entre os mais respeitados atualmente em todo o mundo, é um brasileiro simples, que não dá bola para rótulos, não tem preconceito em relação ao mercado e gosta de compartilhar arte, tecnologia e recursos para oferecer a muitos a possibilidade da arte. – Não creio na arte que se origina em uma ideia ou mensagem política que logo se transforma em arte. Pensar em fazer arte para defender os oprimidos não é fazer arte, é fazer política. Se, no caminho de fazer arte, de buscar concretizar uma ideia artística, der para transmitir uma mensagem política, isto já é outra coisa – esclarece, em recente entrevista ao jornalista Alberto Armendáriz, correspondente no Brasil do jornal argentino La Nación.

Antenado com seu tempo, acaba de inaugurar, na Bienal de Veneza, a instalação Lampedusa, alusão mais que concreta ao drama dos refugiados no Mediterrâneo, questão que muito o preocupa. Lampedusa, aliás, será leiloada ao final da Bienal. Os recursos, Vik vai destinar a uma ONG voltada para o atendimento aos refugiados.

O artista e seu processo

Nascido em São Paulo, Vik Muniz foi criado na comunidade Jardim Panamericano, na capital paulista. Com interesses tão diversos quanto publicidade, cenografia, teatro, filosofia e literatura, foi com as fotografias de suas obras em grande formato que alcançou a consagração artística.

Como criador, gosta que o espectador entenda o processo de como suas obras foram feitas.

– Isso permite que esse espectador estabeleça uma relação temporal – explica. – As pessoas costumam pensar nas imagens com algo instantâneo, imediato, porém a imagem que te inspira a imaginar como foi feita te leva a pensar no processo através do qual ela foi realizada. E isso já te dá a possibilidade de pensar em outras coisas: na intenção da imagem e até em conclusões filosóficas sobre aquilo que se está vendo – empolga-se.

Imagem, arte e publicidade

Além de ter obras suas em coleções tão importantes quanto a da Tate Modern, em Londres, e de museus como o Metropolitan, o MoMA e o Guggenheim, em Nova York, Vik Muniz criou também aberturas para TV, como a da novela Passione, da Rede Globo; e teve sua obra registrada no documentário O Lixo extraordinário (Waste Land) (2010), dirigido por Lucy Walker e co-dirigido por João Jardim e Karen Harley, indicado ao Oscar. Em 2014, para a Copa do Mundo, Vik dirige com Juan Rendon o documentário sobre futebol That is not a ball(Isto não é uma bola).

Acredita que o artista, hoje, pode e deve se envolver com todas as possibilidades que as imagens e a tecnologia oferecem. – Andy Wharol já explorava esse lado contemporâneo, trabalhava com o poder das imagens, que considero uma atitude artística muito válida. – E completa: – A mim me interessa a arte material, claro, porque basicamente o que faço são objetos, mas também me interessa que minhas imagens tenham transcendência para além do material, que estabeleçam uma relação entre a obra e a sensibilidade das pessoas.



http://www.jb.com.br/cultura/noticias/2015/10/10/museu-vale-recebe-panorama-da-obra-de-vik-muniz/

Cultura e conhecimento são ingredientes essenciais para a sociedade.

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