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sábado, 14 de maio de 2016

Panama Papers, licitadores anónimos e a arte como lavandaria de dinheiro. --- Panama Papers, anonymous bidders and art as laundry money.

A venda há cerca de dois anos de uma estátua egípcia por um museu britânico abriu forte polémica no Reino Unido, com várias entidades a lamentar o facto de que o artefacto com milhares de anos deixe agora o país de forma definitiva e sem destino conhecido. Nada foi dito porém acerca do facto de se tratar de uma peça egípcia e não britânica que estava em mão britânicas, o que é uma apropriação de arte demasiado comum nos museus europeus.


Para já, interessa às organizações inglesas alertar para uma prática pouco ética - e pouco legal - denunciada com os Panama Papers: a lavagem de dinheiro a coberto de licitações anónimas.

Não é que estejamos a falar rigorosos cumpridores dos preceitos legais sempre que se fala curadores de museus e agentes artísticos, sejam licitadores ou leiloeiros. Recentes denúncias relativamente a agentes do mundo da arte que estavam a negociar atrás da cortina com o Estado Islâmico dispensam grandes argumentações.

Vejamos, por exemplo, Palmira: contrariamente ao que se julgava pelos vídeos do próprio Estado Islâmico, os militantes não se dedicaram a escavacar a cidade histórica: tê-lo-ão feito com algumas peças para efeitos de propaganda, mas por detrás da cortina estavam mais preocupados em desmontar as ruínas da cidade histórica que venderam a respeitáveis agentes por todo o mundo. Para quê? Para financiar a sua guerra de terror, claro.

Mas o caso é agora outro: a estátua de Sekhemka, uma figura com 4.500 anos representando um escrivão com a sua mulher (possivelmente), e que estaria protegida pelo Governo britânico através de uma proibição de exportação.

O interesse egípcio em recuperar a posse da estátua manteve activa durante quase quatro anos uma campanha de crowdfunding com vista a adquirir a estátua de pouco mais de 75 centímetros. Fica por perceber se - face à proibição oficial - o Governo britânico deixaria que a estátua de Sekhemka saísse para o Egipto uma vez adquirida a peça.


De qualquer forma, esta iniciativa não foi suficiente para impedir que um licitador anónimo tivesse já avançado com 16 milhões de libras para tomar posse da estátua que há muito terá saído do Reino Unido, apesar de apenas agora as organizações envolvidas na sua recuperação terem disso sido informadas. Terá saído em definitivo e sem destino conhecido, tal como desconhecido é também o novo proprietário, de acordo com os antigos detentores da peça, no Museu de distrito de Northampton.

Activistas britânicos do Save Sekhemka Action Group UK e o próprio ministro egípcio da Cultura, Mamdouh al-Damaty, ficaram em estado de choque ao saber que a estátua embarcou numa viagem sem volta: “Um crime moral contra o Património da Humanidade”, lamentaram a uma voz, sabido que Northampton tinha consumado a venda.

“É com grande tristeza que dizemos que é possível que a estátua tenha deixado o Reino Unido para um destino desconhecido, fazendo com que a nossa campanha de angariação ao longo dos últimos três anos e dez meses se tenha tornado inútil”, declarou o grupo activista.

“É lamentável que durante este tempo não tenhamos recebido qualquer apoio oficial para a nossa campanha por parte dos grandes museus nacionais e que a condenação de Northampton por parte do Conselho das Artes de Inglaterra e da Associação de Museus não tenha tido qualquer efeito”, lamentaram os activistas.

Em consequência desta venda, o Museu de Northampton perdeu entretanto o estatuto que lhe permitia aceder a financiamento público até pelo menos 2019. Sobre Northampton recai essa acusação de ter furado os preceitos de venda – no caso, não venda – de artefactos históricos.

O grupo lamenta o comportamento dos responsáveis de Northampton, mas acrescenta: “Face às revelações dos designados Panama Papers, demonstrativos de um comércio pouco ético e anónimo com antiguidades para resolver problemas fiscais e de lavagem de dinheiro, é tempo de o Conselho das Artes de Inglaterra, a Associação de Museus e o mundo dos museus insistirem com o Governo britânico para que ponha termo às licitações anónimas”.




Fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti


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