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terça-feira, 14 de junho de 2016

Em tempos de discussão de gênero. Gerda Wegener (1886-1940) era um artista e pintor dinamarquês conhecido por sua arte erótica.


Durante grande parte do século passado, não era raro ver peças eróticas que foram exibidos em diferentes formatos. Na verdade, ouso dizer que a arte erótica tem sido parte da história da arte para sempre. Imagens Gerda tem grande qualidade e "dibujístico" denotam o grande talento do autor, que usou como modelo para o marido.


A história de Gerda e seu marido Einar Wegener começou com o que inicialmente tinha que ser um fetichismo brincalhão e terminou com a primeira operação de mudança de sexo no mundo.


A verdadeira história do filme 'A Dinamarquesa' 

Em tempos de discussão de gênero, mais um filme trata o assunto com a maior poesia: "A garota dinamarquesa", dirigido por Tom Hooper, com o ator Eddie Redmayne interpretando o pintor dinamarquês Einer Mogen Wegener, um caso pioneiro de mudança de sexo nos anos 30. Ao posar para a mulher, a pintora Gerda Wegener, interpretada por Alicia Vikander, Einer descobre que tem uma alma feminina dentro de um corpo masculino. Incentivado por Gerda, ele se transforma em Lili Elbe. Conheça a verdadeira história de Lili.

Primeiro de maio de 1930. Einar Wegener marcara a data para se matar depois de passar um ano de tormentos. A causa de tanto sofrimento: a certeza de que era uma mulher presa num corpo masculino. Em determinados momentos, ele sentia que havia duas pessoas lutando pela supremacia.



Uma dessas pessoas era um pintor de paisagens, um homem firme, segundo o próprio Einar, capaz de "enfrentar tempestades". Ele se casou com Gerda, presença forte, talentosa ilustradora, reconhecida pelos retratos femininos que fazia para revistas como "Vogue" e "La Vie Parisienne".

A outra personalidade, que crescia dentro dele, era a de Lili Elbe, alguém descrita por ele como "inconsequente, superficial e caprichosa", incapaz até de falar diante de homens poderosos. Mas apesar de todos esses defeitos, em fevereiro de 1930 ficou cada vez mais difícil para Einar resistir a ela.



“Estou acabado", escreveu na ocasião. "Lili já sabia disso há muito tempo e consequentemente ela se rebela com mais vigor a cada dia." Wegener não cometeu suicídio no dia marcado. Em vez disso, procurou um médico para ajudá-lo, que acabou fazendo uma série de operações que permitiram a transformação de Einar em Lili. 

Em setembro de 1931, Lili acabou morrendo, vítima de uma intervenção mal sucedida para transplantar um útero em seu corpo. Ciclosporina, a droga que previne a rejeição de órgãos transplantados, foi usada com sucesso pela primeira vez em 1980, quase 50 anos depois da morte de Lili Elbe.



No ano anterior ao da sua morte, Lili Elbe divorciou-se de Gerda, abandonou a pintura e começou uma relação amorosa com um marchand francês. “Não é com o meu cérebro, nem com os meus olhos ou minhas mãos que desejo ser criativo mas com meu coração e meu sangue", escreveu. "O maior desejo na minha vida de mulher é ter um filho".

Einar começou a virar Lili por acaso

De acordo com o próprio relato de Wegener, sua transição para Lili começou a acontecer por acaso, quando uma das modelos femininas de sua mulher faltou. A amiga do casal, a atriz Anna Larsen, sugeriu que Einar posasse. No início ele resistiu mas acabou cedendo. "Não posso negar, pode soar estranho, mas me senti bem na maciez das roupas femininas", escreveu Lili.




Esse evento acidental despertou sentimentos tão profundos que Wegener continuou a se vestir como Lili, nome pelo qual passou a ser chamado por Larsen com o apoio de Gerda, que passou a usá-la como modelo de seus quadros.

Em Paris, Lili como irmã de Einar, frequentou os bailes com Gerda

Em 1912 o casal se mudou para Paris. Lá Gerda acompanhou Lili _ ou "a irmã de Einar" _ nos bailes, onde passou a vê-la flertar com os cavalheiros. Mais tarde, Lili contou que Gerda foi sua maior advogada e os dois ficaram juntos durante uma década num casamento nada convencional.

À medida que os anos passavam, Wegener foi ficando cada vez mais deprimido. Procurou vários médicos, que não ajudaram em nada. Uns diziam que ele era gay e outros, que era simplesmente histérico. Einar viveu numa época em que a compreensão do gênero e do sexo humano apenas nascia.



O termo transsexualismus

Em 1918, Magnus Hirchfeld, um médico alemão fundador da primeira organização pelos direitos gays, abriu o Instituto para a pesquisa sexual em Berlim. Durante 30 anos Hirschfeld documentou experiências homossexuais em homens e mulheres pelo mundo com a intenção de transformar a sexologia numa rigorosa disciplina acadêmica. É de Hirschfeld o termo "transsexualismus”.

Na virada para o século XX, vários médicos fizeram experiências para investigar a base biológica do gênero em animais. O Professor Steinach de Viena enxertou ovários em ratos machos castrados na infância e notou que como consequência cresciam peitos.



Quando atingiam a puberdade, esses animais não mostravam qualquer interesse nas fêmeas. O inverso também foi verdadeiro nas fêmeas, cujos ovários foram susbstituídos por testículos. Somente décadas mais tarde os cientistas isolaram e sintetizaram os hormônios do estrogênio e da testosterona.


Os procedimentos sofridos por Einar Wegener, na época com 47 anos, são desconhecidos por que o Instituto da Pesquisa Sexual foi destruído pelos nazistas em maio de 1933. Na biografia "Man into Woman", que publica vários diários e várias cartas de Wegener/Elbe, assim como conversas com o editor do livro, Niels Hoyer, vários detalhes são esclarecidos.

Várias operações transformaram Einar em Lili 

Einar passou por várias operações na Clínica de Kurt Warnerkros em Dresden. No livro, O doutor Kurt é descrito como um homem de ilimitada potência masculina, como salvador e criador de Lili. O tratamento custou o equivalente a 12 mil libras de hoje, levantadas por Wegener com a venda de suas pinturas.

Além do transplante fatal de um útero e da remoção dos testículos, ovários de uma jovem mulher foram enxertados no corpo de Einar. Em suas memórias, ela sugere que descobriram, numa das operações, que ela tinha um par de pequenos ovários não desenvolvidos.



O novo sobrenome de Lili, Elbe, foi escolhido por causa do rio que corre na cidade de seu renascimento como mulher. Depois das primeiras operações, ela sofreu momentos de desespero ao não ser aceita pelos antigos amigos além de experimentar a sensação de ter "assassinado" Einar. Ela abandonou a pintura e passou a rejeitar toda sua existência anterior.

Um passaporte com o novo nome

Até mesmo a irmã mais velha foi fria com ela. O rei dinamarquês concordou em anular seu casamento com Gerda e o divórcio foi oficializado no dia 6 de outubro de 1930. Gerda casou-se com um oficial italiano que dilapidou suas economias. Morreu em 1940 sem um centavo. Lili recebeu um passaporte com o novo nome. E quando visitou o irmão mais velho, contou que não se lembrava mais de onde seus pais haviam sido enterrados.



A sensação da falta de raízes cresceu junto com um desejo enorme de criar uma vida nova. Em setembro de 1931, depois do transplante de útero, enviou uma carta à irmã em que dizia: "Agora eu sei que a morte está perto. A noite passada sonhei com minha mãe. Ela me abraçou e me chamou de Lili e meu pai também estava lá". No dia 13 de setembro de 1931 morreu.

No verão ela escreveu a um amigo: “Durante 14 meses provei que sou Lili, vital e tenho o direito de viver. Não é muito mas me parecem ser uma vida completa e feliz".

Eddie Redmayne, que impressionou no papel do físico Stephen Hawking em "A teoria de tudo", volta a surpreender na metamorfose Einer/Lili nessa história que acontece em Copenhague e Paris entre 1926 e 1931, época em que o corpo feminino se liberava totalmente através da moda e da dança graças a designers como Jeanne Lanvin, Coco Chanel e Paul Poiret. Paco Delgado se inspirou nos três para criar os looks de Lili e Gerda.

Chanel inspirou figurino do filme

A maquiagem foi outro desafio. "Eu sabia que Tom filmaria em closes sobretudo nas cenas emocionalmente pesadas. Para obter esse efeito, usei uma base feita com cera de abelha, que se mistura perfeitamente à pele. Também trabalhei em parceria com uma empresa para desenvolver a palheta de cores da época", diz abeauty designer Jan Sewell.


A liberdade de identidade está presente não só na maquiagem mas nos tecidos e no guarda-roupa. Delgado, Hooper e Stewart pesquisaram a arquitetura e as fotos de época do casal na Biblioteca nacional de Copenhague. O figurinista fez questão de reproduzir fielmente o primeiro vestido branco, usado por Lili ao posar para Gerda. Na primeira aparição em público como mulher, Lili usa um vestido cedido departamento de figurino da Ópera de Copenhague.

"Queríamos que a cena fosse sutilmente teatral", conta o figurinista, que para a fase parisiense de Lili e Gerda, inspirou-se em Coco Chanel. "Ela foi a primeira estilista a pensar na mulher moderna, na nova mulher que surgia na época. Foi pioneira ao introduzir o tricô no armário feminino permitindo assim maior movimento", observa.




Fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti


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