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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Cultura e cozinha brasileira: - O ofício das quitandeiras - The quitandeira’s craft: tradition and cultural heritage of Minas Gerais, Brazil - Chef Juliana Bonomo

Perfil da chef  Juliana Bonomo
Cozinheira, pesquisadora de cozinha brasileira e mestre em Memória Social.

Curiosa pela própria natureza, gosto de sair pelo Brasil e pelo mundo provando novos sabores. Gosto também de escrever e de dividir com as pessoas as coisas que vejo e que penso.
Quitandeiras

A palavra quitanda, em Minas Gerais, Brasil, é utilizada para designar o conjunto da pastelaria caseira, tais como bolos, biscoitos, rosquinhas e broas. Quitandeiras, então, são as mulheres que fazem e vendem quitandas artesanalmente. No presente artigo, procuramos compreender a tradição do ofício das quitandeiras de Minas Gerais, assim como levantar e justificar os argumentos para classificá-lo como um patrimônio cultural imaterial. As receitas de quitandas começaram a se desenvolver no início do século XIX no ambiente rural e familiar. Com o conhecimento passado de geração em geração, é uma tradição que perdura até os dias de hoje. Transcendendo uma memória que é familiar, o ofício das quitandeiras vem sendo incorporado aos debates sobre a memória coletiva e a identidade dos habitantes de Minas Gerais.


Nas Minas Gerais, Brasil,  do século XVIII, o termo quitandeira era utilizado para designar as negras vendeiras, também chamadas de negras de tabuleiro, que vendiam alimentos pelas ruas. De origem africana, mais especificamente, do quimbundo, língua falada no noroeste de Angola, a palavra quitanda, seria um derivativo de kitanda, que significa tabuleiro onde se expõem gêneros alimentícios à venda nas feiras, inclusive verduras e legumes. Na África, a palavra também passou a designar as próprias feiras. Já no Brasil, ela ganhou o significado de pequenos estabelecimentos comerciais, cujos produtos são expostos em bancadas ou Essa prática feminina, de origem africana, havia se estendido nas colônias, mas foi assumindo diferentes características locais, como no caso de Minas Gerais, onde as negras de tabuleiro se congregavam nas regiões de exploração mineradora (Paiva, 2001, Figueiredo, 1993; 1997). Durante o século XIX, com o esgotamento do ciclo de exploração das minas, as quitandeiras negras, escravas ou forras, foram desaparecendo enquanto categoria social, mas o termo quitanda permaneceu, ainda que fortemente ressignificado. Assim, em Minas Gerais, Brasil, o termo ficou consagrado à elaboração caseira da pastelaria, associada ao lanche, à merenda e ao café, como define o ensaísta Eduardo Frieiro (1982): “quitanda, não o esqueçamos, é a pastelaria caseira, o biscoito, a broa, a rosca, o sequilho, o bolo” (...). Portanto, quitandeiras, na concepção atual, são mulheres que fazem e vendem quitandas. Marcado pela transmissão oral do conhecimento, o ofício é transmitido entre as mulheres da família, sendo considerado uma herança, uma memória dos antepassados familiares.

Recentemente, em Minas Gerais, as quitandeiras estão ganhando cada vez mais destaque nos festivais gastronômicos promovidos no estado, como é o caso da cidade de Congonhas, que promove o Festival da Quitanda há 14 anos. Junto a isso, percebemos um interesse crescente do poder público no sentido de incentivar o ofício das quitandeiras e promover essa atividade como um bem cultural. Embora ainda não tenha sido registrado como patrimônio cultural imaterial, podemos dizer que as recentes políticas de patrimonialização identificaram na quitanda e na figura da quitandeira, símbolos da identidade regional mineira. Nesse contexto de patrimonialização, há um crescente interesse pela memória social dessa prática.

Rev. História Helikon, Curitiba, v.2, n.4, p.32-46, 2o semestre/2015.

Em meio a essas observações, veio a ideia dessa pesquisa, cujo objetivo principal é levantar e justificar os argumentos necessários para definir o ofício das quitandeiras como patrimônio cultural imaterial e o seu fazer como inserido na tradição culinária do estado de Minas Gerais. Para tanto, além de uma revisão bibliográfica sobre a origem das quitandas, utilizamos as entrevistas da pesquisa de campo realizada entre os anos de 2012 e 2014, quando tentamos circunscrever as memórias das mulheres que exercem o ofício de quitandeiras. Utilizando a técnica da entrevista semiestruturada, a pesquisa foi realizada nas cidades de Ouro Preto, Congonhas, Entre Rios de Minas e São Brás do Suaçuí. 

Ao todo, entrevistamos dezoito quitandeiras e realizamos a pesquisa participante nos festivais promovidos pelas prefeituras locais.

Sendo assim, esperamos, ao longo da análise proposta por esse trabalho, chamar a atenção para o ofício das quitandeiras de Minas Gerais nas discussões que integram o contato entre a Gastronomia, a História e a Memória Social. Com essa pesquisa, procuramos registrar a voz, o pensamento e a história das mulheres que ajudaram a formar a cozinha mineira. Ao fazermos isso, acreditamos que foi possível alcançar uma memória que transcende o ambiente familiar e que passa a fazer parte das dos debates sobre o patrimônio cultural de Minas Gerais, Brasil.





https://julianabonomoblog.wordpress.com/


Cultura e conhecimento são ingredientes essenciais para a sociedade.

Vamos compartilhar.






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The word quitanda, in Minas Gerais, Brazil, is used to denote the set of homemade pastries, such as cakes, cookies, donuts and scones. Quitandeiras, then, are the women who make and sell handcraftedpastries. In this article, we try to understand the tradition of quitandeira’s craft of Minas Gerais, as well as bring up and justify the arguments to classify it as an intangible cultural heritage.

The recipes for quitandas began to develop in the early nineteenth century in rural and family atmosphere. Through the knowledge passed from generation to generation, it is a tradition that continues to these days. Transcending a memory that is familiar, the quitandeira’s craft has been incorporated into the debates on collective memory and identity of the inhabitants of Minas Gerais, Brazil.
 
In Minas Gerais, Brazil, from the eighteenth century, the term was used to designate greengrocer black vendeiras, also called black board, and sold food on the streets. Of African origin, more specifically, the Kimbundu, spoken language in the north of Angola, the grocery word, would be a Kitanda derivative, which means board where they are exposed foodstuffs on sale at fairs, including vegetables. In Africa, the word also came to designate their own fairs. In Brazil, she won the meaning of small shops whose products are exhibited in the stands or This feminine practice of African origin, had been extended in the colonies, but it was taking on different local characteristics, as in the case of Minas Gerais, where board black flocked to the areas of mining exploration (Paiva, 2001 Figueiredo, 1993; 1997). During the nineteenth century, with the depletion of mines cycle, the black greengrocers, slaves or blinders were disappearing as a social category, but the term greengrocer he remained, although strongly reframed. Thus, in Minas Gerais, Brazil, the term was devoted to the homemade preparation of pastry, associated with the snack, the snack and coffee, as defined by the essayist Eduardo Frieiro (1982), "grocery store, let us not forget, it is the homemade pastries, Cookie, the bread, the thread, the sequilho, the cake "(...). Therefore, greengrocers, in the current design, are women who make and sell greengrocers. Marked by the oral transmission of knowledge, the craft is passed between the women of the family and is considered an inheritance, a memory of family ancestors.
Recently, in Minas Gerais, the stallholders are gaining more prominence in the gastronomic festivals promoted in the state, such as the city of Congonhas, which promotes Quitanda Festival for 14 years. Next to that, we see a growing interest from the government in encouraging the trade of greengrocers and promote this activity as a cultural asset. Although it has not yet been recorded as intangible cultural heritage, we can say that recent patrimonialization policies identified in the grocery store and the grocer figure, symbols of Minas Gerais regional identity. In this context of patrimony, there is a growing interest in social memory of this practice.
Rev. History Helikon, Curitiba, v.2, n.4, p.32-46, 2nd semester / 2015.
Amid these observations came the idea of ​​this research, whose main purpose is to raise and justify the arguments required to define the office of the stallholders as intangible cultural heritage and its making as entered in the culinary tradition of Minas Gerais. To this end, in addition to a literature review on the origin of greengrocers, we use interviews of field research conducted between the years 2012 and 2014, when we try to limit the memories of women who exercise the office of greengrocers. Using the technique of semi-structured interview, the survey was conducted in the cities of Ouro Preto, Congonhas, Entre Rios de Minas and São Brás do Suaçuí.
Altogether, we interviewed eighteen greengrocers and conducted participatory research in festivals promoted by local governments.
So, hopefully, over the analysis proposed by this work, drawing attention to the craft of Minas Gerais greengrocers in discussions that are part of the contact between the gastronomy, history and social memory. With this research, we try to record the voice, the thought and the history of the women who helped shape the mining cuisine. In doing so, we believe it was possible to achieve a memory that transcends the familiar environment and becomes part of the discussions on the cultural heritage of Minas Gerais, Brazil.


colaboração: Juliana Bonomo


Profile chef Juliana Bonomo

Cook, kitchen Brazilian researcher and teacher in social memory.

Curious by nature, I like to go out throughout Brazil and the world tasting new flavors. I also like to write and to share with people the things I see and what I think.





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