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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O resgate das memórias do fado Museu do fado disponibiliza on-online arquivo sonoro com 30 mil registos. --- The redemption of the fado memories. Fado Museum offers on-online sound archive with 30,000 records.

Conta-se em poucas linhas a história de vida de Zé Bacalhau. Tipo castiço, nascido em Oeiras em 1880, filho daquele que, à data, era conhecido, na zona, como o velho ‘Bacalhau de Oeiras’, é a ele que lhe é atribuída a autoria do famoso ‘Fado Bacalhau’, composição repescada por dezenas de fadistas ao longo do século XX até aos dias de hoje. 


Da morte de Zé Bacalhau, cantador, guitarrista, poeta, jornalista e taberneiro em Alcântara, também não rezam grandes relatos. Sabe-se que terá falecido sem grande glória em 1935 e descobriu-se há pouco tempo que deixou escondida (ou perdida) uma gravação do ‘Fado Bacalhau’ na sua própria voz, uma pérola da história do fado. 

O registo original foi encontrado em tão mau estado que foram necessários sete dias de restauro, mais de 70 horas de trabalho, para recuperar apenas vinte segundos de gravação. 

Ora, é precisamente esse histórico registo sonoro do ‘Fado Bacalhau’ que em breve poderá ser escutada por todos – apaixonados, curiosos ou estudiosos da canção de Lisboa – no novíssimo e inovador Arquivo Sonoro Digital do Museu do Fado, já acessível a partir do site do próprio Museu (www.museudofado.pt). 

Este arquivo é a primeira coleção áudio disponível online a partir de um dos maiores acervos de fonogramas existentes no País. Identificados estão já mais de 30 000 repertórios associados ao fado, dos quais três mil estão já disponíveis para audição. 

É a democratização em definitivo do fado, da sua história e das suas memórias. Além do fado é possível encontrar também outros géneros musicais como música brasileira e repertório de teatro de revista. 

Raridades Para escutar no Arquivo Sonoro Digital do Museu do Fado estão algumas raridades e descobertas que apanharam de surpresa até a diretora do próprio Museu. "Surpreendeu-nos muito descobrir gravações em que se ouve a voz da Júlia Florista, uma figura tão falada na história do fado e cuja voz ainda não tínhamos escutado. 

Neste momento, temos doze gravações disponíveis, sendo que algumas delas até estavam na posse de um senhor inglês", revela Sara Pereira. "Temos também várias gravações do hino nacional, a maioria delas feitas por atores e temos vários registos do ‘Fado do 31’ da ‘Revista do 31’ de 1913, um fado que ilustra bem aquele período conturbado da República", adianta aquela responsável que destaca ainda no arquivo gravações de Armandinho (o pai da guitarra portuguesa), de Artur Paredes (pai de Carlos Paredes) e também de "fadistas de talento indiscutível que, apesar de terem gravado, por algum motivo não entraram na história do fado", lembra. 

São nomes que surgem ao lado de outros que dispensam apresentações como Alfredo Marceneiro, Beatriz Costa, Vasco Santana ou Amália Rodrigues, que aqui tem quase 60 registos anteriores a 1950. 

Cumprindo um dos compromissos estratégicos do Plano de Salvaguarda da candidatura do Fado à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (UNESCO), o Arquivo Sonoro Digital do Museu do Fado disponibiliza online os registos de fados gravados desde o início do século XX. 

"São verdadeiros resgates de gravações que andavam perdidas no tempo", lembra Sara Pereira. O trabalho de restauro é de uma minúcia e cuidado extremos, quase uma obra de filigrana. 

"Alguns dos discos que temos de tratar têm mais de cem anos. Chegam-nos às nossas mãos muito danificados, partidos e alguns casos até colados. Primeiro têm de ser limpos através de uma máquina única em Portugal com produtos especiais e só depois é que podem ser reproduzidos", explica Pedro Félix, técnico que lidera a equipa responsável pela recuperação das gravações. É ele que tem a delicada tarefa de acolher nas mãos discos em estado de quase degradação absoluta e dar-lhes uma segunda vida. 

Muitos dos suportes físicos que chegam até si vêm de uma época em que o vinil ainda estava longe e os discos eram constituídos por materiais tão variados como o carvão ou o papel. 

"O trabalho mais complicado que tivemos até agora foi de facto o ‘Fado Bacalhau’. Era o único disco e único exemplar em que o compositor interpretava o fado da sua própria criação. Sendo único investimos mais algum tempo. Duas pessoas estiveram a trabalhar durante sete dias mais de dez horas por dia só para recuperar os primeiros vinte segundos", conta.


Doações 
Desenvolvido através de uma parceria entre o Museu do Fado (Câmara Municipal de Lisboa – EGEAC) e o Instituto de Etnomusicologia (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa), o Arquivo Sonoro Digital só é possível graças à colaboração de várias entidades, particulares e colecionadores. Muitos dos repertórios identificados estão na posse de outras instituições como a RTP, o Museu da Música ou o Museu do Teatro, mas também na posse de colecionadores e particulares, nacionais, mas também muitos estrangeiros. 

"Há tempos recebemos um email da Alemanha de um senhor que tinha visto o nosso arquivo e que tinha consigo dois discos da Ercília Costa. Eram faixas que nós não tínhamos e é assim que o arquivo vai crescendo", conta Sara Pereira. "Todo o acervo do Museu do Fado na sua maioria é fruto de doações de particulares. Desde a sua abertura ao público que o museu foi angariando as coleções que ilustram o percurso dos artistas e que estão na suas próprias mãos, nas mãos de herdeiros, de familiares ou particulares. 

Ninguém hesita em ceder-nos o seu património em prole deste projeto coletivo", conta. "Pelos nossos contactos há muitos colecionadores que têm em sua casa cem ou duzentos discos e que estão dispostos a cedê-los para digitalização", acrescenta Pedro Félix. Esta é a primeira vez que uma instituição disponibiliza em Portugal e em acesso livre a sua coleção fonográfica. 

"E só assim é que faz sentido desde que salvaguardadas todas as questões com a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). Este é um passo importante na defesa do nosso património", afiança Sara Pereira.

Espalhados 
Em grande parte da primeira metade do século XX, os discos em Portugal eram gravados por técnicos que vinham de propósito do estrangeiro para executar a tarefa, o que quer dizer que muitas das gravações de fado feitas, na altura por cá, andarão ainda espalhadas pelo velho continente. 

Esses técnicos vinham sobretudo de Inglaterra, França e Alemanha e andavam pelo Mundo a fazer gravações para as diferentes companhias. Eram uma espécie de produtores ambulantes. "Por cá usavam espaços como o teatro Taborda, salas de espetáculos ou mesmo escritórios para fazerem os seus registos fonográficos", explica Pedro Félix. 

Depois da gravação, faziam uma cópia que entregavam aos representantes locais das empresas para que estes escolhessem quais os números de catálogos que gostavam de ver editados. "Mas os masters (originais) eram levados para os países de origem dos técnicos", explica ainda aquele responsável. "Em Portugal as coisas ainda estavam muito atrasadas. 

Por cá não existiam estúdios, fábricas de discos ou técnicos e o tal modelo de gravação ambulante não vai existir em Portugal até aos anos 40, embora nos anos 30, com o aparecimento das rádios, se tenha tornado possível fazer algumas gravações nos estúdios das emissoras", lembra ainda Pedro Félix. Só a título de curiosidade os estúdios profissionais como nós os conhecemos hoje, cheios de botões, é algo que só acontece no pós-guerra.


Perdidos na guerra Se é verdade que à medida que se vai avançando na pesquisa, na investigação e na recuperação das obras perdidas parece ser cada vez mais difícil encontrar novos registos, o facto é que infelizmente também há gravações que se terão perdido para sempre. 

"Com a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, muitos dos arquivos na Alemanha foram destruídos e as fábricas bombardeadas. Perderam-se muitos masters e documentos que nos ajudariam na própria datação dos registos", desabafa Pedro Félix. A datação é, de resto, uma das grandes dificuldades na elaboração do Arquivo Sonoro Digital uma vez que alguns dos fonogramas são bem do início do século. 

"A primeira grande datação é feita visualmente. Através dos códigos inscritos nos discos dá para perceber se ele é acústico ou elétrico, ou seja, se é anterior ou posterior a 1927. Depois dessa primeira triagem são cruzadas outras informações, através do número de catálogo e de matriz e depois através da biografia do intérprete ou compositor. Contudo, há sempre uma margem de erro de cinco anos." Muitos dos discos gravados acusticamente antes de 1927 são maioritariamente oriundos do teatro de revista. "Temos cerca de 150 revistas representadas no nosso arquivo em que os cantores mais gravados são sobretudo atores. 

É um fenómeno curioso que vem corroborar aquilo que a história do fado já vinha defendendo, que o teatro teve um papel fundamental na promoção do fado desde finais do século XIX e também na primeira década do século XX. Era o teatro que, em função dos êxitos obtidos nos seus palcos, ditava quais os discos que passavam à gravação", remata a diretora do museu, Sara Pereira.






Fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti



Cultura e conhecimento são ingredientes essenciais para a sociedade.

A cultura e o amor devem estar juntos.

Vamos compartilhar.




The redemption of the fado memories.
Fado Museum offers on-online sound archive with 30,000 records.

It is said in a few lines the life story of Joe Cod. castiço type, born in Oeiras in 1880, the son of one who, at the time, was known in the area as the old 'Oeiras Cod', is to him that it is given the authorship of the famous 'Fado Cod', repescada composition dozens of singers throughout the twentieth century to the present day.


The death of Joe Cod, singer, guitarist, poet, journalist and publican in Alcantara, also do not pray large accounts. It is known to have died without much glory in 1935 and was discovered recently that left hidden (or lost) a recording of 'Cod Fado' in his own voice, a pearl in the history of fado.

The original record was found in such bad shape that it took seven days to restore, over 70 hours, to recover only twenty seconds of recording.

It is precisely this historical sound recording of 'Cod Fado' that may soon be heard by all - passionate, curious and scholars of the song of Lisbon - the brand new and innovative Digital Sound Archive of the Museum of Fado, already accessible from the site Museum itself (www.museudofado.pt).

This file is the first collection audio available online from one of the largest existing collections of phonograms in the country. Identified are already more than 30,000 repertoires associated with fado, of which three thousand are available for listening.

It is the democratization definitive fado, its history and its memories. In addition to fado can also find other musical genres like Brazilian music and musical theater repertoire.

Rarities To listen to the Digital Sound File Fado Museum are some rarities and discovered that caught by surprise even the director of the Museum itself. "It surprised us a lot discover recordings you hear the voice of Julia Florist, such spoken figure in the fado history and whose voice had not yet heard.

We now have twelve recordings available, some of which were even in possession of an English gentleman, "says Sara Pereira." We also have several recordings of the national anthem, most of them made by actors and we have several records of 'Fado 31 'the' Magazine 31 '1913, fado that illustrates that troubled period of the Republic ", said one official who still stands in the Armandinho recordings file (the father of the Portuguese guitar), Artur Paredes (father of Carlos Paredes) and also "indisputable talent of singers who, despite having written for some reason did not enter the history of fado," he recalls.

They are names that come alongside others who need no introduction as Alfredo Joiner, Beatriz Costa, Vasco Santana or Amalia Rodrigues, who here has almost 60 previous records to 1950.

Fulfilling one of the strategic commitments of Fado's candidature Safeguard Plan to the Representative List of the Intangible Cultural Heritage of Humanity (UNESCO), the Digital Sound Archive of the Museum of Fado online offers the fates of records recorded since the beginning of the twentieth century.

"They are true redemption of recordings that went lost in time," recalls Sara Pereira. The restoration work is a detail and extreme care, an almost filigree work.

"Some of the records that we have to have more than a hundred years. We receive our hand very damaged, parties and some cases even pasted. First they have to be cleaned through a single machine in Portugal with special products and only after that can be played, "said Pedro Felix coach who leads the team responsible for the recovery of the recordings. It is he who has the delicate task of receiving the state disks hands almost absolute degradation and give them a second life.

Many of the physical media that reach you come from a time when vinyl was still far and the discs were made of various materials such as coal or paper.

"The most complicated work that had so far was that the 'Fado Cod'. It was the single disc and single copy in which the composer played the fate of his own creation. Being only invest some more time. Two people were working for seven days more than ten hours a day just to recover the first twenty seconds, "he says.



Donations
Developed through a partnership between the Fado Museum (Lisbon City Hall - EGEAC) and the Institute of Ethnomusicology (Faculty of Social and Human Sciences, New University of Lisbon), the Digital Sound Archive is only possible thanks to the collaboration of several entities , individuals and collectors. Many of the identified repertoires are held by other institutions such as RTP, the Music Museum and the Theatre Museum, but also in the possession of collectors and private, national, but also many foreigners.

"Some time ago we received an email from Germany of a man who had seen our file and which were with two discs of Ercília Coast. They were tracks that we did not have and that's how the file is growing," says Sara Pereira. "All the Fado Museum collection is mostly the result of private donations. Since opening to the public that the museum has been raising the collections that illustrate the route of artists, who are in their own hands, in the hands of heirs, family or individuals.

No one hesitates to give us their heritage in offspring of this collective project, "he says." By our contacts there are many collectors who have in their house hundred or two hundred records and who are willing to let them to scan, "adds Pedro Felix. this is the first time that an institution provides in Portugal and free access to your music collection.

"And only then does it make sense since safeguarded all the issues with the Portuguese Society of Authors (SPA). This is an important step in preserving our heritage," Bail Sara Pereira.

spread
In much of the first half of the twentieth century, the discs in Portugal were recorded by technicians who came from abroad purpose to perform the task, which means that many of fado recordings made at the time around here, they will walk even around the old continent.

These technicians came mainly from England, France and Germany and went around the World to make recordings for the different companies. They were a kind of itinerant farmers. "Around here used spaces like theater Taborda, concert halls or offices to make their sound recordings," explains Pedro Felix.

After the recording, made a copy delivered to local representatives of these companies to choose which number of catalogs they liked to see edited. "But the masters (originals) were taken to the technical origin countries," further explains that responsibility. "In Portugal things were still very backward.

For here there were no studios, disc factories or technical and such a moving recording model will not exist in Portugal by age 40, while in the 30s, with the advent of radio, it has become possible to make some recordings in the studios of the stations "recalls still Pedro Felix. curious title only professional studios as we know them today, filled with buttons, is something that only happens after the war.

Lost in the war it is true that as it progresses in research, investigation and recovery of lost works seems to be increasingly difficult to find new records, the fact is that unfortunately there are recordings that have lost forever.

"With the Second World War, for example, many of the files in Germany were destroyed and bombed factories. They lost to many masters and documents that would help us in the very dating of the records," sighs Peter Felix. The dating is, moreover, one of the great difficulties in the development of Digital Sound Archive as some of phonograms are at the very beginning of the century.

"The first major dating is done visually. Through the codes written on the discs you can tell whether it is acoustic or electric, that is, whether it is before or after 1927. After this initial screening are crossed other information through the catalog number and matrix and then through the biography of the artist, or composer. However, there is always a margin of error of five years. " Many of the discs recorded acoustically before 1927 are mostly coming from revues. "We have about 150 magazines represented in our archive where most recorded singers are mostly actors.

It is a curious phenomenon that corroborates what the history of fado was already arguing that the theater played a key role in promoting the fado since the late nineteenth century and also in the first decade of the twentieth century. It was the theater that, due to the successes achieved in their stages, which dictated the discs that passed the recording ", concludes the museum director Sara Pereira.

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