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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Artista plástico brasileiro Vic Moniz com os catadores de lixo no maior aterro do mundo, o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro, Brasil. --- On the work of Brazilian artist Vic Moniz with garbage pickers in the largest landfill in the world, Jardim Gramacho, on the outskirts of Rio de Janeiro, Brazil.

O impacto tem nome: pode ser Telmo ou Rafael ou Gustavo...




Telmo Martins, membro da Orquestra Geração (Foto: Maria Vlachou)

Há uns anos, vi o documentário Waste Land (Lixo Extraordinário). Era sobre o trabalho do artista plástico brasileiro Vic Moniz com os catadores de lixo no maior aterro do mundo, o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Moniz disse que queria mudar a vida de um grupo de pessoas com os mesmos materiais com que elas lidam todos os dias. Juntos, usaram lixo para criar grandes retratos dos próprios catadores, que foram depois vendidos em leilão e o dinheiro distribuído entre os catadores. Os trabalhos foram apresentados em exposições em vários museus de arte contemporânea.

Uma das cenas mais memoráveis ​​para mim é uma discussão entre Vic Moniz e a sua esposa. Ela é totalmente contra a ideia de levar um dos catadores ao leilão em Londres. Diz que Moniz está a "brincar com as cabeças deles", que está a ser cruel, que lhes mostra um mundo que nunca poderá ser o deles e que, uma vez tudo acabado, eles terão que voltar para as suas vidas, possivelmente, tendo que lidar com a frustração e a depressão. Consegui entender muito bem as suas preocupações, mas, ainda assim, como Vic Moniz, pensei que as oportunidades podem surgir na vida de todas as pessoas e cabe a cada pessoa decidir se quer agarrá-las, mesmo que seja uma coisa que aconteça uma vez na vida, ou deixá-las. No final do documentário, somos informados que todos os catadores, excepto um, decidiram deixar seu trabalho no aterro e tentar algo diferente com o dinheiro das obras de arte. A sua associação, também, conseguiu melhorar as condições de vida da comunidade, fundando uma clínica médica, um centro de dia, um centro de formação profissional e uma biblioteca.

Penso muitas vezes na discussão acalorada entre Vic Moniz e a sua esposa quando estamos a reflectir sobre o impacto de certos projectos artísticos e culturais na vida das pessoas e sobre as formas de o medir. Talvez "medir" não seja a palavra certa, porque parece referir-se apenas a números. Talvez "avaliar" seja um termo mais apropriado, uma vez que em grande parte se refere a indicadores muito diversos, incluindo qualitativos. Incluindo as pequenas histórias pessoais, menos conhecidas.

Quando vi pela primeira vez uma peça da coreógrafa brasileira Lia Rodrigues (foi Pororoca em 2010, na Culturgest, em Lisboa) soube também do seu Centro de Artes da Maré, uma das maiores favelas do Rio de Janeiro. Este é também o lugar onde Lia Rodrigues co-fundou, em 2011, a Escola Livre de Dança da Maré, proporcionando aulas de dança gratuitas a aproximadamente 300 pessoas, de todos as idades, que vivem naquele bairro. A escola tem como objectivo partilhar com as pessoas os conhecimentos de uma companhia de dança profissional. E usa a linguagem da dança, como explica a coordenadora da escola Sílvia Soter, porque é uma manifestação artística que veio do desejo das pessoas de o fazer (ver vídeocom professores e alunos).


Rafael Galdino e Gustavo Glauber, alunos da Escola Livre de Dança da Maré (imagem retirada do website Redes da Maré (Foto: Iuri Carvalho)

Dois jovens alunos da Escola Livre de Dança da Maré, Rafael Galdino e Gustavo Glauber, viajaram este ano para a Bélgica. São dois dos quatro brasileiros seleccionados através de audição para participar no programa internacional de estudos da PARTS, uma das melhores escolas de dança contemporânea do mundo. São os primeiros alunos que deixam a escola da Maré para ir directamente para uma escola europeia (ler artigo).

Rafael fala sobre sua experiência na escola de Maré como algo que era muito mais do que aulas de dança: “Cheguei aqui ainda muito novo, na adolescência, toda aquela fase de descobertas, incertezas e muita insegurança. Então acho que, não só como bailarino, mas também como pessoa, a maior parte de tudo que sou, desenvolvi aqui nessa escola da Maré, a Lia Rodrigues conversa muito com a gente, puxa a orelha, orienta, não é somente a dança.”

As aulas na Bélgica são em inglês e os dois jovens não estavam preparados para isso. Gustavo diz que ele teve aulas de francês na Maré, uma parceria entre a associação Redes da Maré e a Alliance Française, o que vai ser útil na Bélgica. Mas agora, ambos estão a aprender inglês. Rafael acrescenta: “A dificuldade com o inglês fez com que eu apurasse mais a atenção para os movimentos da dança, para os movimentos do corpo do professor.”


Telmo Martins com a Orquestra Geração no CCB (Imagem retirada do blog blogueforanadaevaotres.blogspot.pt)



Na altura em que li sobre estes dois rapazes brasileiros, soube também de um rapaz daOrquestra Geração (a versão portuguesa do El Sistema venezuelano), que tinha passado por uma audição para um estágio com a Orquestra Gulbenkian. Quis saber mais, entender de onde vinha esse rapaz, o que a orquestra significa para ele e como decidiu fazer da música a sua profissão.


Foi uma alegria encontrar-me e conversar com o Telmo Martins esta semana. Soube da Orquestra Geração, como é frequentemente o caso, por mero acaso. Na altura, tinha 12-13 anos e estava a repetir o 7º ano, Uma amiga que tocava contrabaixo na orquestra convidou-o para ir à sua aula. Foi isso. Telmo passou a fazer parte da orquestra, assim como todos os seus irmãos, excepto o mais velho. O contrabaixo foi perfeito para ele, não estava interessado nos instrumentos do costume - piano ou violino ou guitarra. De ouvir apenas um tipo de música na rádio, descobriu a riqueza de estar exposto a mais, diferentes géneros musicais. Nos últimos três anos, tem viajado para a Inglaterra para ser o mentor de crianças mais novas que estão a dar os seus primeiros passos na Orquestra Sistema England. E amanhã, segunda, irá começar o seu primeiro ano como estudante de contrabaixo na Escola Superior de Música de Lisboa.

O resto vem nas suas próprias palavras:

"A Orquestra Geração deu-me a música, mas também amigos em todo o mundo, oportunidades para aprender mais e ajudar os outros. Em geral, tornei-me numa pessoa melhor, aprendi a ouvir e a falar, a respeitar e a ser disciplinado. Isto não é óbvio de imediato, à medida que vamos crescendo, temos a tendência de valorizar estas coisas e é isto que estou a tentar transmitir às crianças mais novas.

Quando era muito mais novo, na escola, costumava dizer à professora de inglês que não percebia para que é que aquilo servia. Mais tarde, quando estava a ter aulas na Escola Profissional da Metropolitana, percebi que o inglês é fundamental. Quando decidi candidatar-me à Escola Superior de Música, passei três anos a trabalhar na minha música, mas também no meu português, que tinha negligenciado. Quando o meu professor de contrabaixo me falou da audição para o estágio na Orquestra Gulbenkian, decidimos que devia tentar, embora as vagas sejam geralmente atribuídas a alunos da Escola Superior de Música. Não passei, mas foi uma das minhas melhores experiências. Estava muito nervoso à frente do júri e em determinado momento pensei para mim 'Bem, é melhor desfrutar disto". Não é preciso termos a certeza que vamos conseguir para tentar, para arriscar. Quando demos o nosso concerto em Julho no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian, ficámos surpreendidos ao saber que os bilhetes não iam ser gratuitos, iam ser vendidos. Fomos tratados como verdadeiros artistas.

Os alunos do Conservatório não estão muito contentes com os apoios que a Orquestra Geração está a receber e com todas as oportunidades dadas aos seus membros. Falei com eles, entendo-os. Eles seguiram o caminho normal e estão a pagar pelas suas aulas. Mas o que lhes digo é que, se não fosse dessa maneira, eu não teria tido acesso doutra forma a esta oportunidade."

O impacto não é apenas números. Tal como o acesso não é apenas rampas e casas de banho adaptadas. Precisamos de falar sobre as histórias humanas que existem por trás da nossa lengalenga profissional e ir além das checklistsque somos convidados a preencher a fim de provarmos o nosso "sucesso". Nós conhecemos as histórias, mas não falamos o suficiente sobre elas. No entanto, são precisamente estas histórias que permitirão que mais pessoas façam parte do nosso mundo, que ajudarão os nossos financiadores a entender o tipo de retorno que todos temos sobre o seu investimento. O impacto tem um nome; tem, realmente, muitos nomes. Todos nós devemos conhecê-los. Eles são a razão porque fazemos o que fazemos.






Fonte: @edisonmariotti #edisonmariotti


Cultura e conhecimento são ingredientes essenciais para a sociedade.

A cultura e o amor devem estar juntos.

Vamos compartilhar.








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On the work of Brazilian artist Vic Moniz with garbage pickers in the largest landfill in the world, Jardim Gramacho, on the outskirts of Rio de Janeiro, Brazil.

Naming the impact: it may be Telmo or Rafael or Gustavo…

Telmo Martins, member of the Orquestra Geração (Photo: Maria Vlachou)

A few years ago, I saw the documentary Waste Land. It is about the work the Brazilian visual artist Vic Moniz created together with garbage pickers at the world’s largest garbage dump, Jardim Gramacho, in the outskirts of Rio de Janeiro. Moniz said that he wished to change the lives of a group of people with the same materials they deal with every day. So, together they used garbage to create large-size portraits of the garbage pickers, which were later sold in auction and the money was distributed among the garbage pickers. The works were presented in exhibitions in a number of contemporary art museums.

One of the most memorable scenes for me is an argument between Vic Moniz and his wife. She is totally against the idea of taking one of the garbage pickers to the auction in London. She is telling him that he is “playing with their heads”, that he is being cruel in showing them a world that can never be their own and that once all that is over, they’ll have to go back to their previous lives, possibly having to deal with frustration and depression. I could totally understand her concerns, still, just like Vic Moniz, I thought that opportunities may come up in every person’s life and it’s up to each person to decide whether they wish to grab it, even if it’s a once in a lifetime thing, or leave it. In the end of the documentary, we are informed that all but one of the garbage pickers decided to leave their work at the dump and try something different with the money from the artworks. Their association also managed to improve living conditions in their community by founding a medical clinic, a day care centre, a training centre and a library.

The heated discussion between Vic Moniz and his wife often comes to my mind when we are reflecting on the impact of certain artistic and cultural projects in the lives of people and the ways of measuring it. Perhaps “measuring” is not the right word, as it seems to refer only to numerical measurements. Perhaps “evaluation” is a more appropriate term, as it largely refers to very diverse indicators, including qualitative. Including the small, lesser known, personal stories.

When I first saw a piece by Brazilian choreographer Lia Rodrigues (it wasPororoca in 2010, at Culturgest in Lisbon) I also found out about herCentro de Artes da Maré, an arts centre situated in one of Rio de Janeiro’s biggest slums, the Maré. This is where she also co-founded, in 2011, the Escola Livre de Dança da Maré (the Maré Free Dance School), offering free dance lessons to approximately 300 people, of all ages, living in that neighbourhood. The school aims to share with those people the knowledge of a professional dance company. And it uses the language of dance, as the school coordinator Sílvia Soter explains, because it is an artistic manifestation that came from the people’s desire to do it (video with English subtitles with teachers and students). 







Rafael Galdino e Gistaco Glauber, students of the Maré Free Dance School (image taken from the website Redes da Maré Photo: Iuri Carvalho) 

Two young men, Rafael Galdino and Gustavo Glauber, were students of the Maré Free Dance School. This year, they flew to Belgium, two of the four Brazilian chosen through a very tough audition to attend the international studies programme of PARTS, one of the best contemporary dance schools of the world. They are the first students who leave the Maré Free Dance School to go directly to a European school (read the article).

Rafael talks about his experience at the school in Maré as something that was much more than dance classes: “I was still very young when I came here, a teenager, all that phase of discovery, uncertainty and a lot of insecurity. So I think that, not only as a dancer, but also as a person, I developed most of what I am here, in this school, Lia Rodrigues talks a lot with us, pulls our ear, guides us, it’s not only about the dance.”

Classes in Belgium are in english and the two young boys were not ready for it. Gustavo says that he had French classes at the Maré, a partnership between the association Redes da Maré (Maré Networks) and Alliance Française, which will come handy in Belgium. But now, they are both learning English. Rafael adds: "The difficulty with English made me refine my attention with regards to the dance moves, to the movements of my teacher's body." 


Telmo Martins with Orquestra Geração at the Centro Cultural de Belém (image taken from the blog blogueforanadaevaotres.blogspot.pt) 


At the time I read about the two Brazilian boys going to PARTS, I also found out about a young boy of the Orquestra Geração (the Portuguese version of the Venezuelan El Sistema) who had passed an audition for an internship with the Gulbenkian Orchestra. I was interested to know more, to understand where this boy came from, what the orchestra meant to him and how he decided to make music his profession.

It was a joy to meet and talk to Telmo Martins this past week. Finding out about the Orquestra Geração was, as it is often the case, mere chance. At the time he was 12-13 years old, repeating the 7th grade, and a friend who was playing double bass invited him to her class. That was it. He became part of the orchestra, just like all his siblings, except the eldest. The double bass was perfect for him, he wasn’t interested in the usual – piano or violin or guitar. From listening to only one kind of music on the radio, Telmo discovered the richness of being exposed to more, different genres. In the last three years, he’s travelled to England to be the mentor of younger children who are taking their first steps in theSistema England Orchestra. And Tomorrow he’ll be starting his first year as a double bass student at the Escola Superior de Música de Lisboa (Lisbon’s Higher School of Music).

The rest comes in his own words:

“The Orquestra Geração has given me the music, but also friends around the world, opportunities to learn more and to help others. Overall, I’ve become a better person, I learned how to listen and talk, to respect and to be disciplined. This is not obvious right away, as we grow older, we tend to value these things and this is what I am trying to transmit to the younger kids.

When I was much younger, at school, I used to tell the English teacher I didn’t know what English was for. Later, when I had classes at the Metropolitana Professional School I realised English was fundamental. When I decided to apply for the Higher School of Music, I spent three years working on my music, but also on my Portuguese, which I had neglected. When my double bass teacher told me about the audition for the Gulbenkian Orchestra internship, we decided together to give it a try, although the vacancies are usually for the students of the Higher School of Music. I didn’t pass, but it was one of my best experiences. I was very nervous in front of the jury and at a certain moment I thought to myself ‘Well, you better enjoy it’. There is no need to be sure that we are going to make it in order to try, to take the risk. When we gave our concert in July in the Grand Auditorium of the Gulbenkian Foundation we were very surprised to find out that tickets were not for free, they would be sold. We were treated like artists.

The students of the Conservatoire are not very happy about all the support the Orchestra Geração is having and all the opportunities its members are getting. I’ve talked to them, I understand them. They have taken the normal way and they are paying for their classes. But what I tell them is that, if it hadn’t been in this way, I would have never had access to this opportunity.”

Impact is not just about numbers. Just like access is not just about ramps and disabled toilets. We need to talk about the human stories behind our professional bla-bla and go beyond the checklists we are asked to tick in order to prove our ‘success’. We know the stories, but we don’t talk enough about them. But it’s precisely these stories that will allow more people to become part of our world, help funders understand the kind of return we all get on their investment. Impact has got a name; it has actually got many names. We should all know them. They are the reason we do what we do.

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